quinta-feira, dezembro 20, 2018

COOPERATIVA LACTICÍNIOS ITAUNENSE

ANO DE 1911

Rio de Janeiro, segunda feira, 6 de novembro
A Cooperativa Itaunense de Lacticínios, organizada há pouco, vai instalar brevemente na capital uma grande leiteria modelo, dotada de aparelhos frigoríficos, pasteurizados, resfriadores, etc.

A Cooperativa Itaunense de Lacticínios já está construindo na próspera vila de Itaúna, em frente da estação, um vasto edifício para a sua sede onde vai instalar os machinismos mais aperfeiçoados para o tratamento do leite e produtos de lacticínios.
Dessa nova associação fazem parte 50 associados, todos fazendeiros e criadores, achando-se a mesma, portanto, em ótimas condições para fornecer qualquer quantidade de leite superior qualidade a população desta capital.

Os Srs. João Gonçalves de Souza e Luiz Ribeiro de Oliveira, diretores da Cooperativa Itaunense de Lacticínios, já requereram à Prefeitura de Belo Horizonte, a licença para estabelecer a leiteria naquela capital, onde, além de leite pasteurizado ou simplesmente congelado, leite homogeneizado. Venderão manteiga fresca e sem sal, “petits-suisses”, queijos e requeijões, enfim, todos os produtos de laticínios.

Com a dupla instalação de frigoríficos e mais aparelhos em Itaúna e em Belo Horizonte, devido a pequena distância (100 km) que separa as duas localidades, devido ainda a serem os fornecedores de leite, todos os sócios, suprimindo-se assim todo intermediário.

 A Cooperativa Itaunense de Lacticínios acha-se em condições até hoje ainda não igualadas para o abastecimento de leite ao consumidor.



ANO DE 1913

 “19 de março de 1913 — Inaugura-se solenemente, com a presença do Secretário da Agricultura sr. José Gonçalves de Sousa, a Cooperativa de Lacticínios, com prédio e maquinários próprios à nova indústria. ” (JOÃO DORNAS, 1951)


Rio de Janeiro, sexta-feira, 28 de março

Inaugurou-se a 19 do corrente, a Cooperativa de Lacticínios Itaunense, instituição que está destinada a prestar os melhores serviços a uma das mais prosperas industrias daquele futuroso município.

A cerimônia inaugural realizou-se perante numerosa assistência, sendo honrada com a presença do Dr. José Gonçalves de Souza, secretário da agricultura; do presidente da Câmara Municipal e várias outras pessoas gradas.

A nova Cooperativa, aparelhada para entrar em franco e perfeito funcionamento, está instalada em amplo e confortável edifício, possuindo as mais modernas e aperfeiçoadas machinas, que foram compradas a casa Arens & C., por intermédio de seu representante nesta capital, Dr. Carlos Beaumord.

O prédio é dividido em diversas seções. Logo a entrada, vê-se grande salão, onde se acham localizadas as machinas para produção e preparação de manteiga e demais subprodutos. A um lado dessa sala está a seção de latas, provida de machinas poderosas e rápidas, e do outro a de força motriz, que é fornecida por um motor elétrico e a vapor.

Ao fundo no estabelecimento encontram-se a seção para a pasteurização do leite e creme, os resfriadores, a refinação de sal e as câmaras frigoríficas. As machinas frigoríficas, que se acham ligadas a câmara de refrigeração do leite, são de sistema modernismo, como todas as demais machinas que figuram na cooperativa, e comportam um possante compressor de anídrico sulfuroso com a capacidade de 30 mil frigorias, condensador, encanamentos e ligações de frio a câmara frigorífica, perfeitamente isolada, de acordo com processos científicos já adotados na prática moderna, produzindo, além do fio, necessário a refrigeração do leite, etc., cerca de 600 quilos de gelo por dia .

A seção da manteiga possui tudo quanto existe de novo e perfeito; tanques de filtração, aquecedores, desnatadeira, pasteurizador para creme, refrigerador, salgadeira e batedeira automáticas, uniformizadora e purificadora e machina a motor, que serve par a refinação da manteiga, expurgando-a do soro.

Para a exportação do leite, dispõe a cooperativa de todos os machinismos necessários, desde o menor lacto-decímetro até o mais perfeito e complicado pasteurizador, podendo com eles chegar-se a completa congelação do leite. A refinação do sal, feita a vapor é de sistema aperfeiçoadíssimo, permitindo trabalho contínuo, sem os inconvenientes das instalações a fogo nu.

A fábrica de latinhas para o acondicionamento do produto, acionada por magnífico motor, permite a confecção de latas de todos os sistemas. Possui também a cooperativa instalações para o beneficiamento da manteiga e muitas outras.

Aos presentes foi servida uma taça de champanhe, tendo o Sr. Mário Matos saudado o Dr. José Gonçalves de Souza como o continuador da grande obra remodeladora de João Pinheiro, bem como aos dignos e operosos diretores da cooperativa, coronéis João Gonçalves de Souza e Luiz Ribeiro de Oliveira, em nome do povo Itaunense, que via no auspício facto o progresso da futurosa Itaúna.

Em nome do comércio, falou o Sr. Francisco Santiago, tendo respondido a ambos os oradores, o Dr. José Gonçalves de Souza.

 DECRETO N° 3.762 – de 30 DE NOVEMBRO DE 1912

Aprova os estatutos da Cooperativa Agrícola de Lacticínios Itaunense




ANO DE 1946

COOPERATIVA AGROPECUÁRIA DE ITAÚNA LTDA

Fundada em 7 de junho de 1946 a Cooperativa Agropecuária de Itaúna Ltda., com o apital de Cr$ 356.000,00, reunia 79 associados, os quais seguindo o exemplo de seus antepassados, sabiam que a união traz a força e o progresso.

Entregando leite e creme em troca de forragens, ferramentas, tecidos, gasolina, querosene, sal, arame farpado e etc., puderam os felizes iniciadores de hoje, criar a Cooperativa Agropecuária de Itaúna Ltda. agrupar-se como um grupo poderoso que lhes garante um melhor preço para o seu produto e entregar-lhes os artigos de que necessitam por preços bem mais acessíveis dos que os encontrados no mercado.

Entregue que foi aos espíritos esclarecidos de Geniplo Dornas, José Carvalho Júnior, Cândido Perilo e tendo como conselheiros os Srs. Godofredo Gonçalves de Sousa, Antônio Gonçalves Chaves e Luiz Ribeiro Filho, hoje tornou-se uma verdadeira potência econômica, com o capital de Cr$ 908.300,00, o que observando o seu curto período de existência, nos faz prever um futuro bastante promissor.

Sua atual direção está entregue ao Sr. Henrique Antunes Vilaça que é o seu Presidente. Como diretor comercial tem o Sr. José Carvalho Júnior. Diretor Secretário o Sr. Afonso Cerqueira Lima e como conselheiros os Srs. Artur Contagem Vilaça, José Edward Santiago e Luiz Ribeiro Filho, contando hoje com 174 associados.

A sua capacidade é atestada pelo grande movimento de entrada e saída de leite e creme. Nossa reportagem examinando o movimento de 1952, pode verificar que a Cooperativa recebeu de seus associados 3, 554.542 litros de leite, os quais em sua quase totalidade foram transportados para a Capital, em seus três carros tanques, onde foram entregues a Usina Central de leite para a devida distribuição a população.

Também a Cooperativa é associada da Fábrica de Leite em Pó que se instala na vizinha cidade de Sete Lagoa, tendo já realizado a sua quota de capital. Já se aperceberam todos os fazendeiros e produtores de Itaúna e cercanias, do papel preponderante que representa a Cooperativa Agropecuária de Itaúna Ltda., na sua economia e todos já se associaram, dela recebendo os benefícios previstos.

É também pensamento da atual diretoria instalar uma fábrica de rações balanceadas na própria sede no decorrer do ano de 1954. Pelo que pudemos constatar, o município de Itaúna, não é somente zona siderúrgica, pois tem também bastante desenvolvida a sua pecuária e agricultura.

Num dia que não deve estar longe, a acanhada cidade de Santana do Rio São João Acima, estará formando entre as primeiras cidades de Minas, em progresso visto que em outros setores, de há muito o vem fazendo.






PESQUISA E ORGANIZAÇÃO:  Charles Aquino
REFERÊNCIAS:
Jornal O PAIZ: Rio de Janeiro, 6 de novembro de 1911, nº 9892, p.4.
Jornal O PAIS: Rio de Janeiro, 28 de março de 1913, nº 10.399, p.6.
FILHO, João Dornas. Efemérides Itaunenses. Coleção Vila Rica, Ed. João Calazans, 1951, p.37.
Revista Acaiaca: Celso Brant – Diretor, 195, p.192,193.
Leis Mineiras e Decretos: 1912, p. 976.
Textos transcritos conforme originais.
  

sábado, novembro 24, 2018

PONTE MONSENHOR HILTON


Os vereadores do município de Itaúna Alexandre Campos e Antônio de Miranda Silva solicitaram através de oficio ao Deputado Estadual Dirceu Ribeiro que apresentasse na Assembleia Legislativa um projeto de Lei para denominar a ponte sobre o Rio São João com o nome de Monsenhor Hilton Gonçalves de Sousa

Abaixo transcrita na integra o Projeto de Lei:

PROJETO DE LEI Nº 4.587/2017

Dá a denominação "Ponte Monsenhor Hilton" à via da MG 050, que está sobre o Rio São João, no município de Itaúna.

A Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais decreta:

Art. 1º – Fica denominado como "Ponte Monsenhor Hilton" a ponte que está sobre o Rio São João, no município de Itaúna.

Art. 2º – Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

Sala das Reuniões, 5 de setembro de 2017.

Deputado Dirceu Ribeiro – PHS

Vice-Líder do Governo

Justificação: Nascido em 31/12/1912, Monsenhor Hilton foi um menino brilhante, estudioso, inteligente, com destacado desempenho escolar. Em seus momentos de folga, trabalhava como Ajudante em Armazéns de familiares. Para a felicidade da família sentiu vocação para ser Padre, e em 1925 foi para Belo Horizonte estudar no Seminário do Coração Eucarístico de Jesus.
Durante o período em BH, resolveu se ausentar do seminário e trabalhar como Professor, indo lecionar em Sete Lagoas. Neste período escreveu um livro intitulado “A Voz do Coração” que, à época, teve importante repercussão. Quando voltou a Itaúna lecionou na Escola Normal, atual Escola Estadual de Itaúna, taralhando com as disciplinas de Português e Matemática, onde era querido e visto como excelente profissional.
Em 1936, o jovem Hilton sentiu novamente o chamado de Deus e resolveu dedicar-se plenamente à igreja, sendo ordenado Padre em 1944 na sua amada cidade. Demonstrou amor, dinamismo e disponibilidade em seu serviço religioso, sendo muito querido e apreciado pelos fiéis.
Monsenhor Hilton teve grande participação política no município, principalmente na região do bairro Santanense, pois além de reivindicar melhorias locais, atuou de maneira incisiva, sendo um dos lideres, do movimento que tentou a independência administrativa daquela região, sendo até hoje muito lembrado e admirado por moradores daquela localidade.
Monsenhor Hilton, um cidadão destacado, daqueles que vieram para fazer diferença na vida de muitas pessoas ou no caso, de uma cidade inteira, foi importante para Itaúna, para os itaunenses e é merecedor desta singela homenagem que buscamos fazer a este grande homem.
É o clamor da eternização do nome deste eclesiástico pela população daquele município que faz jus a esta proposição.


O texto do projeto foi fruto de uma pesquisa do vereador Alexandre Campos e oficiado juntamente com o vereador Antônio de Miranda. A baixo podemos ver a promulgação da lei pelo Governador Fernando Pimentel:

LEI Nº 23.053, DE 25 DE JULHO DE 2018.

Dá denominação à ponte situada na MG-050 sobre o Rio São João, no Município de Itaúna.

O GOVERNADOR DO ESTADO DE MINAS GERAIS, O Povo do Estado de Minas Gerais, por seus representantes, decretou e eu, em seu nome, promulgo a seguinte lei:

Art. 1º – Fica denominada Monsenhor Hilton a ponte situada na MG-050 sobre o Rio São João, no Município de Itaúna.

Art. 2º – Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, aos 25 de julho de 2018; 230º da Inconfidência Mineira e 197º da Independência do Brasil.

FERNANDO DAMATA PIMENTEL




Monsenhor Hilton Gonçalves de Sousa


Pesquisa e Texto: Alexandre Campos
Iniciativa no Legislativo Itaunense: Vereadores Alexandre Campos e Antônio de Miranda
Iniciativa no Legislativo Mineiro: Deputado Dirceu Ribeiro
Promulgação: Governador Fernando Pimentel
Fotografia e Organização: Charles Galvão
Acervo: Casa Paroquial Santanense / Antônio Gomes


VIADUTO GUARACY


Os vereadores do município de Itaúna Alexandre Campos e Antônio de Miranda Silva, solicitaram através de oficio ao Deputado Estadual Dirceu Ribeiro que apresentasse na Assembleia Legislativa um projeto de Lei para denominar o viaduto em cima da Avenida Silva Jardim, dando a ele o nome do nobre itaunense Dr. Guaracy de Castro Nogueira. Abaixo transcrita na integra o Projeto de Lei:

PROJETO DE LEI Nº 4.588/2017

Dá a denominação de "Viaduto Dr. Guaracy de Castro Nogueira" à via MG 050, sobre a rua Silva Jardim, no município de Itaúna. A Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais decreta:
Art. 1º – Fica denominado como "Viaduto Dr. Guaracy de Castro Nogueira" a via MG 050, no município de Itaúna, sobre a Rua Silva Jardim.
Art. 2º – Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

Sala das Reuniões, 5 de setembro de 2017.

Deputado Dirceu Ribeiro – PHS
Vice-Líder do Governo

Justificação: O Dr. Guaracy é o primeiro filho do casal Guarany Nogueira e Maria de Castro Nogueira, nascido em 02 de dezembro de 1927, na cidade de Itaúna. Advogado, professor, empresário e político, casado com a Sra. Yvette Gonçalves Nogueira, teve seis filhos e nove netos. Faleceu em sua querida terra no dia 17 de setembro de 2011. A atuação deste ilustre cidadão, com muita dignidade e afinco se dá no ramo empresarial, na Companhia Industrial Itaunense, empresa têxtil e siderúrgica, onde exerceu por 38 anos cargos executivos, chegando à Superintendência, foi membro de diversos órgãos de representação empresarial, como o Instituto Brasileiro de Siderurgia.

Também na área do Direito, foi Presidente da 34° Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil por 34 anos. Na Educação, foi professor desde 1953, lecionando em estabelecimento de 2° grau, foi diretor da Escola Estadual de Itaúna. Cofundador da Universidade de Itaúna, sendo seu Reitor por 18 anos, ministrou aulas no Curso de Direito, Engenharia e Economia. Criador e Presidente da Fundação Educacional Maria de Castro Nogueira. Fundou, ainda, três jornais na antiga Itaunense, Voz Operária, Avante e o Itaunense, além de ter sido Presidente da Rádio Clube de Itaúna por 20 anos, atuando como colaborador em vários jornais da cidade e região, seja com crônicas, artigos e etc.

Na Política, fez parte dos quadros dos partidos PSD e ARENA, foi Vereador mais votado na eleição de 1966, eleito Presidente da Câmara Municipal de Itaúna entre 1967-1970, foi Vice-Prefeito e Secretário de Educação da cidade.

Amante da história, estudou a fundo a história de Itaúna e do Centro Oeste Mineiro, pesquisando sobre troncos genealógicos que deram origem as famílias da região. Foi idealizador do projeto que deu origem ao livro “Centro Oeste História e Cultura”.

Participou de diversas instituições itaunenses, tendo destaque seu papel como Provedor da Casa de Caridade Manoel Gonçalves, Membro do Conselho de Administração do Orfanato São Vicente de Paula e da Granja Escola São José, foi sócio e Presidente do Rotary local.

Dr. Guaracy é um cidadão diferenciado, que veio para fazer diferença na vida de muitas pessoas, ou no caso, de uma cidade inteira. Foi importante para Itaúna, para Minas Gerais e para o Brasil. Foi um homem simples e merecedor desta homenagem que buscamos fazer a este importante, honrado, benemérito e ilustre Itaunense.

Publicado, vai o projeto às Comissões de Justiça, para exame preliminar, e de Transporte, para deliberação, nos termos do art. 188, c/c o art. 103, inciso I, do Regimento Interno.

O texto do projeto foi fruto de uma pesquisa do vereador Alexandre Campos e oficiado juntamente com o vereador Antônio de Miranda. A baixo podemos ver a promulgação da lei pelo Governador Fernando Pimentel:

LEI Nº 23.054, DE 25 DE JULHO DE 2018.

Dá denominação ao viaduto situado na MG-050 sobre a Rua Silva Jardim, no Município de Itaúna.
O GOVERNADOR DO ESTADO DE MINAS GERAIS, O Povo do Estado de Minas Gerais, por seus representantes, decretou e eu, em seu nome, promulgo a seguinte lei:
Art. 1º – Fica denominado Guaracy de Castro Nogueira o viaduto situado na MG-050 sobre a Rua Silva Jardim, no Município de Itaúna.
Art. 2º – Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, aos 25 de julho de 2018; 230º da Inconfidência Mineira e 197º da Independência do Brasil.
FERNANDO DAMATA PIMENTEL


Guaracy de Castro Nogueira

Iniciativa no Legislativo Itaunense: Vereadores Alexandre Campos e Antônio de Miranda
Iniciativa no Legislativo Mineiro: Deputado Dirceu Ribeiro
Pesquisa e Texto: Alexandre Campos
Promulgação: Governador Fernando Pimentel
Organização e Fotografia: Charles Aquino
Acervo: Guaracy de Castro Nogueira (In Memoriam)

terça-feira, novembro 20, 2018

RÉQUIEM PARA UM ENCONTRO

Prof. Luiz MASCARENHAS*

         Caía uma chuva fininha quando eu deixei a Matriz de Sant’Ana. De guarda-chuvas aberto, passos reflexivos, demoradamente fitei o meu entorno, com o cenário banhado pela iluminação da praça sob a garoa noturna, desvelando uma cena que inspirava poesia e me remetia a introspeções.  Atrás de mim, o relógio da Matriz soou suas firmes badaladas... oito vezes; completando a cena.

         Estranha a Vida. O Urtigão havia me encomendado uma missa solene, que fosse cantada pelo nosso côro masculino, para a memória de sua mãe, dona Graciana Coura de Miranda, cuja biografia havia lançado há pouco na cidade. Obra que contou com minha participação na feitura de seu prefácio, pela generosidade do autor. E agora, eu estava deixando a igreja, após cantarmos a missa solene que ele desejava; mas não para a sua mãe e sim para o seu sétimo dia.   
 
Nunca senti tanto a morte de um amigo que – na verdade- havia conhecido há tão pouco tempo (uns dois anos).  Prova de que não é a duração e sim a qualidade de nossas relações que as graduam. O Zé Silvério foi um feliz achado! Dois sujeitos bem falantes e de personalidade forte, posso dizer. Perambulamos algumas vezes pelos meus habituais botecos e bares da cidade. Ao final dos colóquios – já beirando a madrugada-  deixava-o no Grande Hotel. Foram momentos prazerosos, interessantes, ricos, de muito aprendizado.

 Ali estava um camarada com uma memória brilhante e que desenhava para mim cenas bucólicas e saborosas da Itaúna das décadas de 50 e 60 do século passado, quando por aqui viveu.  Compartilhou comigo, sua fecunda experiência no ramo da hotelaria, quando conheceu ilustres personalidades que hoje figuram nos nossos livros de História; como Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, Milton Campos, Clóvis Salgado e tantos outros.

         Inteligente, culto, perspicaz, ácido, lúcido...algumas das características do nosso “Urtigão” ou “Camelo”, enfim, do Zé Silvério. Tinha nome de um quase-santo: Monsenhor Horta ou Monsenhor José Silvério Horta – tido como santo pelo povo de Mariana e arredores. Agradeço imensamente a outro bom amigo, o Historiador Charles Aquino (leia-se “Itaúna Décadas”) que teve a feliz iniciativa de me apresentar a ele. Costuramos uma boa e fecunda amizade.

 Vez por outra me telefonava e trocávamos figurinhas.  Impagável e deliciosa foi sua entrevista - que eu e o Confrade Jonas Vieira (escritor, psicólogo, teatrólogo, sexólogo, artista plástico, biógrafo de Pedro Malan e atirador de facas) tivemos a heroica iniciativa de fazer, em nosso programa “Sintonia Cultural” na Rádio Santana FM. Foi uma tarde hilariante e de preciosas informações!  

         Sinto que o Urtigão estava na verdade, fazendo o caminho inverso de sua feliz existência. O retorno às nossas barrancas, as crônicas e “causos” do passado, a homenagem à sua mãe, o levantar de suas memórias. Urtigão não estava aqui à toa. Ele estava – mesmo que de maneira inconsciente- preparando a sua volta. O seu retorno definitivo.

         Ao prestar a atenção na Liturgia de sua Missa de Réquiem (ou da Ressurreição ou do Sétimo Dia- como queiram) tudo me remetia à sua feliz memória. “...teu primeiro amor. Lembra-te de onde caíste! Converte-te e volta à tua prática inicial...” Trecho da leitura extraída do livro do Apocalipse: de fato, um Urtigão a converter-se, a retornar para as terras de Sant’ana, para suas raízes. Para o reencontro definitivo com o seu passado = seu primeiro amor! Vejamos o salmo do dia: “Eis que ele é semelhante a uma árvore, que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus frutos a seu tempo, e jamais as suas folhas vão murchar. 

Eis que tudo o que ele faz vai prosperar”. Sim, nosso Urtigão deu bons e variados frutos e em muito prosperou. E na passagem do cego de Jericó, citado no evangelho de Lucas (o pai do Zé Silvério era cego); ouvi Nosso Senhor perguntando para o Urtigão: ”Que queres que eu faça por ti? ”  E como o cego de Jericó, nosso Zé Silvério respondeu: “Senhor, eu quero enxergar de novo”. E então, seus olhos se abriram para a Eternidade.

         Termino, com o responsório do salmo proclamado: “Ao vencedor concederei comer da Árvore da Vida”.


*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
  Historiador/ Escritor/ Membro Fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/ Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências”, “Olhares Múltiplos” e  “O que a vida quer da gente é coragem”/ Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria” Cidadão Honorário de Itaúna

Organização: Charles Aquino

domingo, novembro 18, 2018

UM TIPO INESQUECÍVEL

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
Chamava-se Nelsino. Negro, forte e de porte elegante. Devia ser descendente direto de algum rei ioruba ou de algum Soba africano. Casado, pai de dois ou três filhos. Não me lembro ao certo. Sua mulher, também negra, trazia uma elegância nata, herdada de alguma estirpe nobre de além do Atlântico.
Ele era motorista de caminhão. Um motorista diferente, de um caminhão inglês. Um caminhão de sangue azul para um motorista idem.
Lembro-me bem do Nelsino. Empregado da cooperativa velha, cabia a ele a tarefa diária de transportar o leite ordenhado em Itaúna para Belo Horizonte. Em um caminhão único. Lembro-me da marca: LEILAND.
Estampada no cofre do motor com os dizeres: "El Camion inglês LEILAND ". O veículo era da cor verde, um verde discreto como convinha a um caminhão parrudo e circunspecto. Súdito da rainha.
Nelsino não deixava por menos. Tinha o porte de um nobre Zulu. De jaqueta azul e calça cáqui, passava sempre na porta de nossa casa a caminho da sua. Para completar a nobreza de porte e a elegância, fumava cachimbo. Algo raro até entre muitos daquela época. Creio que era o único na cidade a degustar o tabaco dessa forma, em largas baforadas. Como um inglês.
Soube recentemente que os filhos herdaram a elegância tanto do pai quanto da mãe. Bem-postos na vida, honram a bela herança de caráter que receberam. Saibam que tive na figura do Nelsino, o meu tipo INESQUECÍVEL!

NOTA: Jussara, tomei a liberdade de enviar para o Charles para ele postar no blog. Abaixo, o recado que mandei para ele:
Charles, como eu suspeitei, a Jussara, diretora do Colégio Estadual em Itaúna é filha do Nelsino, uma figura inesquecível. Sobrinha do Joaquim Procópio, o maior Capitão de Congado que a cidade já teve. Recomendo a você bater um papo com ela. Tem uma história riquíssima. Vale a pena pesquisar. Se for necessário eu escrevo.
Um grande abraço e um beijo no Gabriel.
Urtigão*

 *Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 05/11/2017. Acervo: Shorpy
Organização: Charles Aquino

sábado, novembro 17, 2018

CASA PAROQUIAL DE ITAÚNA

IGREJA MATRIZ DE ITAÚNA MG
29 de julho de 1945
Graças à Nosso Senhor e a generosidade de seis moças da sociedade de Itaúna, vamos começar no dia 7 de janeiro a construção da nova Casa Paroquial, sendo já a planta aprovada pelo Sr. Arcebispo. O orçamento ficou em cento e cinquenta mil cruzeiros (CR$ 150. 000,00).
Devo deixar aqui um voto de louvor à srta. Ivolina Gonçalves, residente a praça da Matriz, pelo trabalho que fez em pedindo as 6 moças o seu valioso auxílio em prol de tão grande obra. O sr. Arthur Contagem Vilaça aqui prontamente cedeu um pedaço de terreno para aumentar a Casa Paroquial.
No dia 29 de julho foi solenemente benta a primeira pedra fundamental pelo representante do Sr. Arcebispo — o Revmo. Padre Armando de Marco, chanceler do Arcebispado, com a presença do sr.  Prefeito Dr. Lincoln Nogueira Machado, Pe. João Ferreira, Pe. Waldemar Teixeira — vigário de Igaratinga, Pe. José Nobre — diretor do Ginásio, Pe. Ignácio Campos —vigário Bom Sucesso, Pe. Ubaldo Silveira — capelão da Santa Casa de Itaúna, José de Cerqueira Lima — gerente da Itaunense, Arthur Contagem Vilaça.
Enfim, todos os elementos representativos de Itaúna e grande número de pessoas.  Tudo vai correndo bem pela união de trabalho.


IGREJA MATRIZ DE ITAÚNA MG
 Inauguração e Benção da Nova Casa Paroquial

26 julho de 1948

 Já há muito Itaúna vinha necessitando de uma casa paroquial digna de tão boa paróquia. Procurei fazer um apelo ao bom e caro povo itaunense. Imediatamente apareceu uma criatura boa e dedicada dando-me sugestão como deveria fazer.
Dirigi-me à sete moças abastadas e fui imediatamente atendido por seis, uma se esquivou, apesar de seu riquíssima. As doadoras foram: Laura Gonçalves de Sousa, Maria de Cerqueira Lima, Lígia Gonçalves de Sousa, Alice de Cerqueira Lima e Maria Gonçalves de Sousa. A grande benemérita organizadora foi a srta. Ivolina Gonçalves. A construção ficou em mais de duzentos mil cruzeiros (Cr$ 200.000,00). Além da caridade tão elevada destas moças, quis ainda outras pessoas oferecer os móveis, assim distribuídos:
1) um escritório completo, duas estantes, um balcão, cadeira giratório, um arquivo e três cadeiras — doação feita por Dona Teresa Gonçalves e srta. Ivolina Gonçalves;
2) sala de visitas, um sofá, duas poltronas, uma mesa de centro — doação da família Olímpio Nogueira;
3) Sala de jantar doação de um anônimo;
4) uma copa completa — doação de Francisco Edwards Santiago;
5) duas mobílias simples de quarto — doação da Pia união das Filhas de Maria e do Apostolado da Oração;
6) três mobílias boas e completas para quarto — doação feita pelo senhor Roman Soares, Geniplo Dornas e José Carvalho Júnior.
7) um fogão de ferro usado, oferta da dona Maria Gonçalves de Sousa (Dona Cotinha);
8) uma panela de alumínio para cozinha — oferta da família Tavares;
9) um aparelho de louça fina para jantar — oferta da família Pereira;
10) Copos, taças e cálices — oferta da família Astolfo Dornas;
11) um aparelho de louca para jantar — oferta dos Congregados Marianos; 12) Talheres — doação do dr. Ademar Gonçalves e Tales Santos;
13) Sete cobertores — oferta da família Luís Ribeiro;
14) dois jogos de linho (talheres e guardanapos) para jantar — oferta de dona Zezé Dornas e srta. Maria José de Faria Matos;
15) sete crucifixos para os quartos e sala de visitas — oferta de Ítalo Mirra e senhora;
16) Dois quadros do Coração de Jesus e de Maria — oferta das alunas da Escola Normal;
17) Lenções e fronha de linho, 2 pares — oferta de dona Teresinha Guimarães Lima e família Augusto Alves de Sousa;
18)  A planta da Casa Paroquial foi feita por um engenheiro residente no Rio de Janeiro. As obras da construção foram confiadas a Companhia Imobiliário (Cicobe) sob orientação do senhor José de Cerqueira Lima. A obra ficou pronta em meados do mês de julho de 1948. A Casa Paroquial foi inaugurada no dia 26 de julho de 1948, festa da Padroeira da Paróquia Sant’Ana.
Após a missa cantada em procissão da Matriz para nova Casa Paroquial, os sacerdotes presentes e o povo seguiram para assistir à benção solene. Não podendo comparecer o Exmo. e Revmo. Sr. Arcebispo Dom Cabral, foi o mesmo representado pelo digno vigário geral Monsenhor José Dias Bicalho que oficiou a benção da nova Casa. Achava-se presentes, as doadoras da casa (menos Maria e Alice Lima), Frei Carlos, vigário de Divinópolis, padre José Mariano Tavares, cooperador do Divino em Divinópolis, Frei Resprício, O.F.M., guardião de Divinópolis, 17 colegas do Seminário Franciscano de Divinópolis, Frei Ambrósio, Diretor do Ginásio Sant’Ana, Frei Cipriano, O.F.M, dr. Antônio de Lima Coutinho, D.D. Prefeito Municipal, Padre Cooperador, Padre Ubaldo da Silveira, autoridades civis e militares e grande massa do povo. Usaram da palavra, o Vigário, o Prefeito e monsenhor Bicalho — abrilhantou bastante as solenidades a Escola [...] dos frades de Divinópolis. Após a benção da Casa o vigário ofereceu um almoço as doadoras, sacerdotes e seminaristas franciscanos, no Ginásio Sant’Ana; A tarde procissão de Sant’Ana, Te Deum e Benção do Santíssimo Sacramento.

 * 1) Pe. José Netto 2) Pe. Waldemar Teixeira 3) Pe. José Nobre 4) José de Cerqueira Lima 5) Olímpio Arruda 6) Francisco Santiago 7) dr. Lincoln Machado 8) Pe. Armando de Marco


PRAÇA MATRIZ DE ITAÚNA MG




REFERÊNCIAS:
ACERVO: Paróquia de Sant’Ana de Itaúna e Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho (In memoriam)
COLABORAÇÃO HISTÓRICA: Paróquia de Sant’Ana de Itaúna
COLABORADOR: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho (In memoriam)
LIVRO TOMBO I: Paróquia de Sant’Ana de Itaúna — 1902 a 1947, p. 85.
LIVRO DO TOMBO II:  Paróquia de Sant’Ana de Itaúna — 1948 a 1992, p. 4,5.
PÁROCO E REGISTRO NOS LIVROS DE TOMBOS I & II: Padre José Ferreira Netto (In memoriam)
PESQUISA E ORGANIZAÇÃO: Charles Aquino