O texto de João Dornas Filho não é apenas um registro
histórico, mas uma janela para compreender a paixão e o comprometimento dos
itaunenses com os ideais republicanos. Rico em detalhes, ele oferece uma visão
viva e emocionante de um momento decisivo na história brasileira, destacando o
papel singular de Itaúna nesse processo. Com gestos simples, mas de grande
impacto, os habitantes do arraial de Sant'Anna do Rio São João Acima ajudaram a
lançar as bases da República no Brasil.
No texto do historiador João Dornas Filho, você mergulhará em
um relato fascinante sobre como Itaúna se destacou no cenário político
brasileiro, marcada por um fervor que, na época da proclamação da República,
talvez a tenha tornado única em Minas por não contar com um único monarquista
em seu território.
Itaúna destacou-se como um dos primeiros redutos republicanos
em Minas Gerais, manifestando-se com fervor pela nova forma de governo antes
mesmo da Proclamação da República. Tanto era intenso esse espírito republicano
que, por volta de 1885, ainda sob a vigência da Monarquia, já não se encontrava
um monarquista sequer na região.
O entusiasmo pela causa era tamanha que o tenente-coronel
Zacharias Ribeiro de Camargos ousou nomear sua fazenda de “República”, enquanto
Aureliano Nogueira Machado, maestro da banda de música local, chegou a escrever
em letras garrafais a frase "VIVA A REPÚBLICA!!" no lombo de um
animal, em um gesto simbólico de afirmação política.
Esse engajamento tomou forma institucional em 21 de abril de
1889, quando um grupo de cidadãos ilustres, incluindo Dr. Augusto Gonçalves,
Manoel Gonçalves, Francisco Manoel Franco, João Dornas dos Santos, Josias
Nogueira Machado, João de Araújo Santiago e Cassiano Dornas dos Santos, fundou
o “Club Republicano 21 de Abril”, uma organização vinculada ao Centro
Republicano de Ouro Preto, então a capital da província. Essa iniciativa
reforçava o compromisso da cidade com os ideais republicanos e sua participação
ativa no movimento político que culminaria na deposição da Monarquia.
Quando, em 15 de novembro de 1889, a notícia da Proclamação
da República finalmente chegou ao arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, o
que se seguiu foi uma explosão de entusiasmo popular. Comemorou-se com grandes
festas e manifestações de regozijo.
Um dos episódios mais pitorescos dessa celebração envolve o
republicano fervoroso Cassiano Dornas dos Santos, que, tomado pelo entusiasmo,
retirou seu paletó e o estendeu no chão para que o burro que transportava as
malas do Correio passasse por cima – um gesto simbólico de deferência à
mensagem revolucionária que chegava à cidade.
A recepção calorosa ao estafeta do Correio, no entanto,
causou um breve mal-entendido: sem compreender o motivo da euforia, o
mensageiro, envolto pela multidão em festa, chegou a temer que estivesse sendo
vítima de alguma agressão. Logo, porém, entendeu que se tratava de uma
demonstração de júbilo coletivo pelo novo regime que se instaurava no Brasil.
A exaltação republicana não se limitou às festividades do dia
da proclamação. Na noite de 20 de novembro, os cidadãos organizaram uma
grandiosa passeata cívica. Um dos momentos mais marcantes foi a condução de um
andor decorado com as cores da bandeira republicana, sobre o qual foi colocada
uma criança – filha de Arthur de Mattos – vestida simbolicamente como a
personificação da República. Curiosamente, o mesmo andor, que simbolizava a
renovação política do país, acabou servindo também para um propósito mais
prático e humanitário naquela mesma noite: transportar uma parteira idosa e
debilitada, que precisava atender com urgência a um chamado.
O “Club Republicano 21 de Abril” consolidou-se, assim, como
um dos primeiros clubes republicanos de Minas Gerais, demonstrando o
pioneirismo de Itaúna na adesão ao novo regime e sua participação ativa na
transição política do Brasil. O engajamento dos itaunenses não foi apenas um
reflexo dos ventos da mudança, mas um testemunho do compromisso da cidade com
os ideais republicanos muito antes que eles se tornassem realidade em todo o
país.
A história da antiga Matriz de Sant’Ana de Itaúna está profundamente ligada ao desenvolvimento religioso, social e artístico da cidade. Originalmente fundada como Capela do Rosário em 1840, foi edificada com o esforço dos pretos em suas horas de folga, testemunhando a devoção e a resiliência da comunidade local.
Em 1853, ocorreu a permuta das capelas, e o templo foi elevado à condição de matriz, mantendo-se como um marco religioso até os dias atuais. Sob a supervisão do padre Antônio Domingues Maia, a matriz passou por sucessivas ampliações e transformações ao longo de quase um século, até ser demolida em 1934, para dar lugar a uma nova edificação, mais condizente com o crescimento e as demandas da cidade em constante transformação.
A Matriz original, concluída em 1875, era uma construção simples em sua aparência exterior, mas seu interior surpreendia pela riqueza das pinturas e elementos decorativos. Pedro Campos, de Sabará, auxiliado por Antônio José dos Santos (Tonho do Bá), realizou as primeiras pinturas internas, embora sua qualidade tenha sido considerada medíocre. Os reparos realizados em 1916 e 1926 acabaram eliminando grande parte dessa obra inicial.
O edifício, contudo, era marcado não apenas por suas belezas artísticas, mas também por tragédias. Durante as obras de ampliação em 1857, o carpinteiro João Júlio César Silvino perdeu a vida ao cair da cobertura. Em homenagem ao seu trabalho, foi o primeiro sepultado no interior da igreja.
Entre os afrescos, destacavam-se representações bíblicas, como a degolação dos inocentes, a fuga para o Egito e o casamento de Nossa Senhora. A qualidade de algumas dessas obras chamou a atenção, especialmente pela similaridade da tonalidade azul utilizada com a técnica do renomado Mestre Ataíde. Em 1917, o pintor Otávio Vítor, ao restaurar a igreja, decidiu preservar uma dessas telas, acreditando tratar-se de uma obra excepcional, mesmo sem conhecer seu autor.
Mais tarde, foi revelado que uma das pinturas — o casamento de Nossa Senhora com São José — era uma réplica de uma obra de Rafael, originalmente pintada para a Igreja de São Francisco em Città di Castello, em 1504. Essa descoberta reforça a influência do Renascimento italiano no imaginário religioso local e no repertório artístico da época.
Entre os elementos icônicos da Matriz estava o galo de lata, instalado em uma das torres. De significado litúrgico, o galo era objeto de superstição: acreditava-se que, se apontasse seu bico para o cemitério devido ao vento, grandes tragédias e mortes ocorreriam na cidade.
Os sinos e o relógio da torre foram adquiridos graças a uma subscrição pública liderada por João Antônio da Fonseca, um grande benemérito da igreja. Esses objetos testemunhavam o esforço comunitário em torno da construção e manutenção do espaço religioso.
A demolição da Matriz em 1934, conduzida pelo padre Ignácio Campos, marcou o fim de um ciclo histórico e o início de uma nova era para Itaúna. Embora a igreja antiga não tenha sobrevivido, seu legado persiste na memória coletiva, nas histórias sobre seus afrescos e nos elementos preservados, como a estampa do casamento de Nossa Senhora encontrada no Lar Católico.
A velha Matriz de Sant’Ana, apesar de simples por fora, era um verdadeiro repositório de história, fé e arte, representando o desenvolvimento espiritual e cultural de Itaúna no século XIX e início do século XX.
"Numa das torres da velha matriz
existia um galo de lata, de significação litúrgica. Se caso esse galo, por
efeito do vento, voltava o bico para o lado do cemitério, grandes mortandades se
verificavam na cidade" ... (DORNAS,
pág. 99). "Os sinos e relógio da torre foram adquiridos por subscrição pública, iniciada por um grande benemérito de Sant’Anna — João Antônio da Fonseca" ... (DORNAS, pág. 24).
Antiga Igreja Matriz Sant'Ana de Itaúna(MG)
"A ampliação da matriz custou a vida
de João Júlio Cesar Silvino, carpinteiro, que trabalhava nas obras de
cobertura, em 1857, e que precipitara ao solo. No Livro de óbitos nº 1 consta o
lançamento do seu enterramento no interior da igreja, em homenagem ao fato de
trabalhar nas obras, parecendo ser o primeiro sepultado ali" (DORNAS, pág. 24).
(clicar para ampliar)
"Só em 1875 é que terminaram as obras
com a pintura interna feita pelo artista Pedro Campos, de Sabará, auxiliado por
Antônio José dos Santos (Tonho do Bá, como o chamavam). Era uma pintura medíocre, que os consertos de
1916 e 1926 fizeram desaparecer" (DORNAS,
pág. 24).
"Era uma igreja de linhas simples por
fora, não tendo nada de arte. Simples por fora, mas pomposa por dentro; era bem
pintada, com lindas telas, tinha no teto anjinhos e medalhões nas paredes do
lado direito do altar-mor era a tela da degolação dos inocentes, a fuga para o
Egito e, do lado esquerdo, o casamento de Nossa Senhora" ... (Sousa, pág.37).
"No ano de 1917, quando o pintor
Otávio Vítor (o Otavinho) restaurou a pintura da igreja, não quis tocar nem de
leve na tela, por se tratar de obra de arte de algum pintor famoso como mestre
Ataíde. Ele ignorava quem havia pintado um azul tão parecido como o desse
mestre. Só ele sabia misturar aquela cor, só ele conhecia o segredo" (Sousa, pág.37).
"Passados muitos anos da demolição da velha
Matriz, encontrei no Lar Católico a estampa do casamento de Nossa Senhora com
São José. O quadro é o mesmo da pintura de nossa igreja. É de *Rafael e foi
pintado para a igreja de São Francisco em Cittá di Castello no ano de 1504" (Sousa, pág.38).
Molhando
a pena no poço de emoções que a tua trágica morte me causou, Cotinha, aqui
estou a felicitar-te, sincera e calorosamente, trazendo-te as minhas “Boas
Festas”, pelo novo ano que aí vem!
Nova
vida novo ambiente! Novas paisagens para teus olhos deslumbrados! Novo mundo
para teus sentidos! Alegrias novas para teu coração! Uma festa de luz para a tua
sensibilidade!
Tu,
que feriste os pés nas pedras da rua, encontrarás uma estrada luminosa e limpa
nos caminhos da amplidão! As pedrinhas, que catavas pelas ruas da cidade,
transformar-se-ão em diamantes e safiras para coroar-te a cabeça.
Terás
rosas, aquelas rosas que tanto admiravas, a atapetar-te o caminho! Não mais
precisarás colhê-las nos jardins da terra! Tê-las-ás em profusão nos vergéis do
céu! Quando passavas desapercebida dos perigos que te rodeavam monologando, toda
entregue às belezas do seu mundo interior, chamavam-te Coitada!
E
tu te exaltavas em altos protestos! E que — mistérios da alma humana! — te
julgavas nobre e te sentias feliz! Os farrapos que mal te cobriam o corpo eram mantos
de rainha a cobrir-te os ombros!
Diziam
que te faltara a razão, Cotinha! Mas, entre os loucos que contigo cruzaram nos
caminhos do mundo, eras a mais inofensiva e feliz! Não fazias mal a ninguém.
Vivias no teu mundo, à parte. E mostravas, também, uma faceta delicada de teu
espírito, um vislumbre de estética espiritual, no teu amor às flores!
Quando
as colhias nos jardins alheios, era com a maior naturalidade que o fazias! Pois
não eram teus todos os jardins da terra? Que mal havia em colheres as rosas
vermelhas que ali desabrochavam? E como apreciavas as cousas finas e agradáveis
ao paladar mais requintado!
Gostavas
do vinho! E como raramente te molhou ele os lábios! Pois é, Cotinha! Deves estar
Feliz! Não mais os perigos da rua! Não mais te chamarão de coitada.
A
ambrosia, néctar dos deuses, ao alcance de teus lábios! Rosas e mais rosas ao
seu alcance de tua mão! Mas o que mais certamente te encantou foi a homenagem
que te prestaram! O teu nome, antes tão pequenino, tão esquecido, falado aos
quatro cantos do Brasil!
O
teu nome, Cotinha, a embargar a voz dos locutores, a fazer chorar o povo que te
queria! Já foste notícia na imprensa da cidade; o teu retrato já emoldurou os
jornais da terra, uma vez!
Mas
nem soubeste disso! Agora, tudo viste! Sabes que chorei a tua morte! Sabes que
todos choraram! O teu caixão todo de branco e, tu toda de branco vestida! Os
teus funerais! A emoção de tua gente! Talvez tivesses dito: Coitados deles!
Agora,
Cotinha, me penitencio, arrependida de não te haver colocado à minha mesa para que comigo comesses do meu pão e bebesses comigo do meu vinho!
Felicidades,
Cotinha!
E
até lá!
Análise do texto"Boas
Festas, Cotinha"
"Boas Festas, Cotinha",
escrito por Nise Campos, é um texto que mergulha profundamente nas emoções e
reflexões sobre a vida e a morte de Cotinha, uma figura aparentemente
marginalizada pela sociedade.
O texto aborda temas de solidão,
marginalização social, transcendência e redenção após a morte. Está estruturado
em forma de uma carta ou mensagem dirigida diretamente a Cotinha, evocando uma
atmosfera íntima e pessoal. O tom do texto é emotivo e contemplativo. A autora
expressa sentimentos genuínos de pesar pela morte de Cotinha, ao mesmo tempo em
que oferece votos de felicidade e redenção em sua nova jornada após a vida
terrena. O estilo é marcado por uma linguagem poética e simbólica, com
metáforas que ressaltam a beleza e a transformação.
Cotinha é retratada como uma
figura incompreendida e marginalizada, mas também como alguém que encontrava
beleza e felicidade em seu próprio mundo interior. Sua morte é celebrada como
uma libertação dos perigos e do sofrimento terreno, enquanto sua jornada após a
vida é imaginada como repleta de luz, beleza e reconhecimento.
O texto lança uma crítica
implícita à maneira como a sociedade trata os marginalizados e os considera
"coitados". Cotinha é apresentada como uma pessoa feliz e inofensiva
em seu próprio mundo, apesar de ser rotulada como louca ou desafortunada pelos
outros. Essa crítica social é intensificada pelo contraste entre a visão dos
outros sobre Cotinha e a maneira como ela é descrita pela autora. O uso de
símbolos, como as rosas, o vinho e a imagem de Cotinha vestida de branco em seu
funeral, adiciona profundidade ao texto. As rosas representam a beleza e a
fragilidade da vida, enquanto o vinho pode simbolizar tanto prazer quanto
sofrimento. O branco pode evocar pureza, paz ou até mesmo uma nova vida após a
morte.
A autora demonstra uma profunda
empatia por Cotinha, reconhecendo sua humanidade e dignidade mesmo em meio à
adversidade. As emoções sinceras expressas no texto, como o pesar pela morte de
Cotinha e o arrependimento por não ter interagido mais com ela em vida, ressoam
com o leitor e evocam reflexões sobre a natureza da compaixão e da conexão
humana.
Em resumo, "Boas Festas,
Cotinha" é um texto que transcende as barreiras da vida e da morte,
oferecendo uma reflexão comovente sobre a dignidade e a beleza encontradas
mesmo nas margens da sociedade. Através de uma linguagem poética e simbólica, a
autora convida o leitor a contemplar a profundidade da experiência humana e a
encontrar significado na redenção e na transcendência.
A ex-diretora do Museu Municipal Francisco Franco de Itaúna e escritora Maria Lúcia Mendes também nos deixa um texto sobre a Cotinha:
Cotinha ...
Em tamanha naturalidade que parece ter vida. Ah, se me lembro dela ... A Cotinha Pereira, como a chamávamos. Magrinha, estatura média, sempre descalça, era vista aqui e ali peregrinando pelas ruas, absorta em monólogos que ninguém entendia.
Quando alguém lhe dizia! “Coitadinha da Cotinha! Caiu no azeite”, ela contraía o rosto em enormes caretas e protestava: Coitadinha é ...
E a meninada corria assustada ante uma enxurrada de palavrões e pedras. Tinha a mania de andar beirando o meio-fio, revirando tudo que encontrasse pelo chão como que à procura de um objeto perdido.
Segundo diziam, Cotinha em verdes anos, perdera uma agulha com a qual sua mãe costurava e, por causa disso, recebera dela uma praga: haveria de procurar essa agulha, enquanto vivesse.
Verdade ou não, continuava sempre sua estranha procura, catando aqui e ali. Às vezes, parava em plena rua e, entregue àquele universo singular, que criara para si mesma, erguia os braços em gestos descompassados, falando sozinha.
Amante das flores, Cotinha as colhia nos jardins por onde passava e, sob uma chuva de pérolas, coroava-se toda dizendo: Sou moça donzela, sou rainha ...
Análise do texto “Cotinha
Cotinha é apresentada como uma
personagem singular, cujo comportamento excêntrico e aparência peculiar a
tornam notável entre os habitantes da cidade. Ela é descrita como magra, de
estatura média, frequentemente descalça e absorta em monólogos incompreensíveis
para os outros.
A interação de Cotinha com os
outros habitantes da cidade é marcada por momentos de estranheza e
incompreensão. O diálogo relatado, onde ela protesta contra o apelido de
"coitadinha", revela sua personalidade forte e a falta de
conformidade com as expectativas sociais.
A história da maldição lançada
pela mãe de Cotinha, relacionada à perda de uma agulha, adiciona um elemento de
realismo fantástico à narrativa. Esse aspecto contribui para a construção da
atmosfera misteriosa e folclórica em torno da personagem. Cotinha é retratada
como uma pessoa imersa em sua própria realidade imaginativa. Seus gestos
descompassados, a busca incessante por uma agulha perdida e sua declaração de
ser uma "moça donzela, rainha", simbolizam sua fuga da realidade
cotidiana para um mundo interior fantasioso e poético.
O texto sugere uma crítica
implícita à forma como a sociedade lida com aqueles que são considerados
diferentes ou excêntricos. Cotinha é marginalizada e até mesmo temida pela
criançada, refletindo a intolerância e a falta de compreensão em relação às diferenças.
A escrita de Maria Lúcia Mendes é direta e descritiva, utilizando uma linguagem
acessível e vívida para retratar a vida de Cotinha. O uso de expressões
regionais e a caracterização detalhada dos hábitos da personagem contribuem
para a autenticidade e vivacidade da narrativa.
Em suma, "Tipos
Populares" é mais do que uma simples descrição de um personagem
excêntrico; é uma reflexão sobre a marginalização social, a imaginação e a
singularidade humana, apresentada através de uma prosa envolvente e ricamente
detalhada.
Vídeo:Registro do Museu Municipal Francisco Manoel Franco em Itaúna realizado por Hamilton Pereira. Em 2014 o museu foi fechado para visitação e somente em 2019 iniciou sua reforma.
A Capela do Bonfim foi erguida no ano de
1853, por um abastado fazendeiro, Tenente José Ribeiro de Azambuja. Seu estilo
corresponde a um colonial muito simples, um “barroco” jesuítico tardio, com
exterior e interior muito despojados.
Foi construída no cume do então Morro de
Santa Cruz, tudo levando a crer que nele já existia um cruzeiro, como era costume
nas Minas Gerais se plantarem cruzeiros nos altos dos montes, perto das
povoações: isso se explica como um sinal de permanência do homem na terra e sua
necessidade das bênçãos do Céu.
Era um sinal do “divino” entre os homens a
recordá-los sempre das promessas e proteção do Eterno. Localizada a
aproximadamente 25 km do centro da cidade de Itaúna, a Capela do Senhor do
Bonfim sempre foi um local de peregrinação religiosa. Muito concorrida era a festa
de “Santa Cruz”, que antigamente se comemorava no dia 03 de maio; atualmente em
14 de setembro (Festa da Exaltação da Santa Cruz). Está situada no ponto mais
alto da região de Itaúna, a 1000m de altitude.
No
séc. XIX, ao passar estas terras, os frades franciscanos capuchinhos, vindos da
Itália, ditos “barbôneos” – chefiados pelo pregador apostólico Frei Eugênio Maria de Gênova - com a
missão da Sagrada Propaganda “Fide” de Roma, recomendaram que se construísse no
interior do cemitério (hoje EE “José Gonçalves de Melo”) a Capela de São Miguel
e Almas e no alto do Morro de Santa Cruz, a Capela do Senhor do Bonfim; daí sua
origem.
Precisamos sempre elucidar o valor intrínseco
do nosso Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. A pequena Capela do Bonfim
é destituída de traços arquitetônicos que chamem a atenção e não contém obras
sacras de valor significativo. Porém, é na sua simplicidade que reside sua
beleza, que para muitos olhares, transmite aquela sensação de paz e harmonia.
Patrimônio tem a ver com nossas raízes,
nossa História, nossa identidade cultural. Aquilo que nos identifica;
singulariza enquanto povo das barrancas do Rio São João. Todas as cidades são dotadas
de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural.
Algumas pessoas, quando nos
referimos a esses valores, pensam que Patrimônio se restringe apenas às cidades
ditas históricas do Ciclo do Ouro, como logo vem à mente, Ouro Preto, Mariana,
Sabará, São João del Rei e tantas outras. Mas, nós – itaunenses - também temos a nossa História particular e
Itaúna também possuí ainda, algumas pouquíssimas edificações e sinais do nosso
passado histórico. Dentre esses; o nosso marco exponencial que é a Capela do
Rosário, construída praticamente cem anos ante da do Bonfim (1765).
A
Capela do Bonfim pertence à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima do bairro Pe.
Eustáquio e está dentro dos bens tombados da nossa Diocese de Divinópolis.
Diferente da Igreja do Rosário, a Capela do Bonfim carece de maior
documentação.
Isto se explica porque a primeira foi erigida como a Igreja
Matriz e assim possuía grande destaque e funções litúrgicas muito próprias e
específicas, por exemplo, os batizados que eram realizados em sua pia batismal -
este objeto litúrgico é próprio apenas das matrizes, não existindo nas capelas
sufragâneas; enquanto a Capela do Bonfim era quase uma ermida de fazenda,
edificada em propriedade particular.
A Capela do Bonfim passou por um terrível
sinistro no dia 16 de outubro de 2014 que a reduziu a cinzas, restando de pé
somente algumas paredes. Portanto, lamentavelmente a Capela original do séc.
XIX já não mais existe, sendo a atual uma reconstrução.
As chamas de um
incêndio criminoso consumiram parte de nossa História e hoje a Capela ainda
segue incompleta na sua reestruturação, uma vez que o altar-mor (peça sacra que
a caracterizava internamente, aonde se celebravam as missas) não foi
reconstruído.
A Capela do Bonfim – em sua singeleza-
leva-nos a um misto de serenidade e paz e do alto do monte, podemos contemplar
a cidade de Itaúna e o horizonte de montanhas a seu redor, introduzindo-nos na
mineiridade da alma.
FREI
EUGÊNIO MARIA DE GÊNOVA
Frei Eugênio Maria de
Gênova nasceu em Oneglia Província de Gênova, Itália, em 4/11/1812 e foi
batizado como João Batista Maberino. Ingressou na Ordem dos Capuchinhos e tomou
as ordens sacras em 1836, com o nome Frei Eugênio Maria.
Em 1843 chegou ao
Brasil, a mando do Papa Gregório XVI, como missionário capuchinho. Esteve no
Rio de Janeiro, Cuiabá e Pitangui catequizando as pessoas das cidades, vilas e
aldeias. Em 12/08/1856 chegou a Uberaba, abriu a Santa Missão e iniciou a
construção de um cemitério que ficou pronto dentro de dois anos.
Pessoa calma, de educação
polida, paciente, caridoso, zeloso quanto ao cumprimento de sua missão, Frei
Eugênio realizou uma brilhante missão religiosa. Pessoas de regiões distantes
vinham confessar com o Frei, que era despojado, vivia como pobre, com as
doações dos fiéis.
Sua biblioteca era
extensa e as obras variadas: escrituras sagradas, teologia, direito canônico,
direito civil, filosofia, liturgia, literatura, ciência, medicina, história e
geografia. Destacava-se na oratória, possuía memória prodigiosa. Diariamente
escrevia as ações do dia, confissões, comunhões, batizados, casamentos, visitas
a enfermos e missas. Pioneiro dos estudos climatológicos e um dos primeiros no
Brasil, fez com que Uberaba tivesse tradição fortíssima em estudo
climatológico. Anotava os fenômenos meteorológicos e fatos da cidade.
Com a chegada de Frei
Eugênio a Uberaba, vieram pessoas de outras localidades, aumentando a população e consequentemente as concessões de terras. Fizeram-se muitas casas e foram
abertos mais de 17 negócios, tudo com ajuda do Frei.
Casais divorciados se
juntaram, protestantes se converteram, se dissolveram mais de 80 concubinários,
fizeram muitas restituições, reconciliaram-se inimigos. A Igreja em Uberaba
ganhou um novo impulso. Vários oratórios e irmandades surgiram neste período.
Conhecido e chamado por
“Padre Mestre”, foi considerado o maior benfeitor de Uberaba e suas ações foram
sempre dirigidas para proteção e assistência aos pobres e desvalidos. Não se
limitava às Missões, estabelecia melhoramentos básicos: cemitérios, hospitais,
serviços de água, estradas cisternas e fossas.
Promovia ao mesmo tempo
assistência aos órfãos, aos índios e aos escravos, que assistiam à Santa Missa
e depois recebiam uma bênção especial do Padre Mestre, que lhes ungia e
colocavam em seus pescoços medalhinhas ou patuás com orações para se protegerem
contra o mau.
UM
IDEALIZADOR DE PROJETOS
Em 1856 iniciou a
construção do cemitério São Miguel, situado onde hoje é a Praça Frei Eugênio,
considerado o mais sólido e amplo do interior do Brasil, na época. Dentro do
cemitério, Frei Eugênio construiu a Capela de São Miguel.
A maioria dos túmulos era de madeira (o mármore
somente entrou em Uberaba por volta de 1880) quando passou a ser empregado na
construção de residências e túmulos, inclusive o de Frei Eugênio.
O cemitério
funcionou 44 anos, de 1856 a até 1900. Foram enterrados neste período cerca de
4.400 pessoas. Foi interditado depois da construção do Cemitério Municipal, na
época conhecido por Cemitério do Brejinho, atual São João Batista e demolido
em 1917.
Frei Eugênio iniciou
também a construção de um novo Cemitério chamado São Francisco, no fundo da
Santa Casa, porém o Frei não chegou a concluir a obra, que ficou só nos
alicerces. Além do Cemitério e da Capela São Miguel, Frei Eugênio projetou
ainda a construção de uma ponte sobre o Rio Grande, no Porto de Ponte Alta, em
direção a Uberaba, no intuito de ligar o litoral a Província de São Paulo às de
Minas, Goiás e Mato Grosso. Pretendia outra ponte no Rio Paranaíba. Abriu ruas,
fez estudos para canalizar as águas do Rio Uberaba, para o abastecimento da
cidade.
De gênio empreendedor,
Frei Eugênio percebeu o progresso aumentar a população, anteviu a mendicância,
a miséria e a precisão de abrigo para a pobreza enferma. Daí seus esforços para
a construção de uma de suas mais grandiosas obras – a Santa Casa de
Misericórdia, no terreno denominado Largo do Rancho, hoje bairro da Abadia,
onde hoje está o complexo Hospital de Clínicas da UFTM, cujo prédio é
preservado até hoje, como patrimônio histórico.
Junto à comunidade
recolheu donativos, como peças de ouro, rosários, relicários, cordões, moedas
do Império e de Portugal, peças de prata e materiais de construção, e dinheiro
em espécie. Também construiu um açude nas imediações do hospital, já que no
local não possuía água suficiente para a demanda da construção. O açude, além
da construção, favoreceu toda a população que vivia nos arredores e sofria com
a falta de água.
Ergueu uma boa casa ao
lado da Santa Casa destinada à administração, onde também passou a residir. De
1921 a 1934, quando foi inaugurado o segundo prédio do Hospital da
Misericórdia, esta casa serviu para internação dos pacientes. O local ficava na
praça Dr. Tomas Ulhôa, esquina com a rua Frei Paulino, onde atualmente está o
Centro Administrativo da UFTM e a Biblioteca, que leva seu nome.
Entre 1862 e 1863, por
conta da epidemia de varíola no país, às pressas foi preparada uma ala do prédio
em que a construção estava mais adiantada, para receber os doentes. Em 1865 uma
ala do hospital abrigou as tropas do Corpo Expedicionário que aqui se
aquartelaram a caminho de Mato Grosso para a Guerra do Paraguai durante 45
dias, cujos doentes de bexiga (varíola) ali se internaram.
OS
DIVERSOS PROBLEMAS NO FIM DA VIDA
A construção da Santa
Casa da Misericórdia foi agigantando-se, um grande prédio foi surgindo para os
parâmetros do período. Durantes os anos de construção da Santa Casa, Frei
Eugênio enfrentou diversos contratempos. Há alguns anos fora atacado por um boi
ficando bastante ferido e sofrendo com sequelas.
Idade avançada, enfermidades e
ainda a hostilidade e intrigas de autoridades da Comarca do Paraná (à qual
pertencia Uberaba), juízes locais e outros que passaram por censuras feitas
pelo missionário solicitando sua retirada da cidade, o abateram. Porém, a
defesa feita pela Câmara Municipal e a população da cidade, conseguiu que ele
permanecesse em Uberaba e continuasse o trabalho.
Depois de muitas
turbulências, após 27 anos da morte de Frei Eugênio, foi finalmente inaugurada
a Santa Casa de Misericórdia de Uberaba, no dia 14/06/1896.
Porém, Frei Eugênio
morreu sem ver sua obra finalizada, vítima de angina, aos 59 anos de idade, às
23horas do dia 14/06/1871, em sua residência, ao lado do hospital. Uma hora
depois os sinos anunciaram a morte do Frei, reunindo grande parte da população
à sua porta. Seu sepultamento foi considerado o maior em termos de
acompanhamento por aqueles tempos, cerca de 4.000 pessoas seguiram o funeral.
Todos os seus bens foram considerados patrimônio da Santa Casa, dinheiro,
objetos valiosos das doações e livros. Tudo que foi arrecadado foi como
donativo para a finalização da Santa Casa. Foi sepultado no Cemitério São
Miguel no outro dia e com a demolição do local em 1917, seus restos mortais
foram encaminhados para o Cemitério São João Batista e em 1965 foram
encaminhados para a Igreja de Santa Teresinha, em grande cortejo.
A jornalista Élvia Morais
descobriu que a lápide original do túmulo do Frei Eugênio estava na Faculdade
de Direito da Universidade de Uberlândia, e o Prefeito Paulo Piau e a
presidente da Fundação Cultural de Uberaba, Sumayra Oliveira, conseguiram
resgatá-la.
A lápide retornou a Uberaba no dia 21/05/2014 e foi colocada na
Paróquia de Santa Teresinha no último dia 15, para ficar junto aos restos
mortais de Frei Eugênio. Nela, o registro de seu sepultamento, 15 de junho,
conforme usava na época.
Itaúna
perdeu, nos derradeiros dias de 1987, uma figura de valor. A professora e escritora Nise Campos era uma personalidade cativante, pela riqueza interior
que possuía e manifestava com simplicidade. Morreu esquecida.
A
sociedade capitalista em que vivemos só se lembra das pessoas que tenham
dinheiro e prestígio (enquanto os têm) ou estejam na idade de produzir e
consumir.
Nise
Álvares da Silva Campos nasceu em Itapecerica (MG), aos 6 de setembro de 1907.
Seus pais foram Inácio Álvares da Silva Campos, membro da Guarda Nacional do Império,
e Dona Luíza Álvares da Silva Contagem.
Fez
o curso primário na cidade de Pompéu e veio prosseguir os estudos na famosa
Escola Normal de Itaúna. Integrou a primeira turma de professoras aqui
formadas, em 1925. O quadro, com os retratos das quatorze formandas, encontra-se no Colégio Estadual.
A
jovem voltou a Pompéu, onde começou a lecionar, mas retornou a Itaúna, em 1930,
ano em que a Escola Normal foi oficializada. Aqui exerceu o magistério até a
aposentadoria no Grupo Escolar José Gonçalves de Melo. Ficou conhecida pela sua
competência e dedicação.
Fora
da escola, era muito procurada para aulas particulares, sobretudo de português.
Possuía algum dom para a música. Tocava bandolim. Em religião, era adepta do
espiritismo Kardecista. Participava com convicção das atividades filantrópicas e
religiosas do seu Centro Espirita. Mas não era sectária, nem proselitista.
Respeitava as opiniões diferentes da sua.
Desde
cedo manifestou dotes literários. Seu irmão, José Maria Álvares da Silva Campos, farmacêutico, era
também poeta. Muito nova ainda, Nise escreveu suas primeiras composições
poéticas. Em seus escritos sempre transparecia um espírito muito humano meditativo
e uma certa melancolia. Colaborou em diversos jornais itaunenses.
Por
ocasião da morte de Cotinha, uma pobre louca que andava pelas ruas, Nise
publicou uma crônica que bem representa o seu estilo. Tenho como seu mais belo
poema a “Ode ao Tempo”.
Às
vezes, aparecia uma outra face do seu espírito: uma moderada crença religiosa.
Este ceticismo está presente nos versos que escreveu, em 1934, sobre a
demolição da antiga Matriz de Sant’Ana de Itaúna. Eis a duas últimas estrofes:
“Espelho da vida! Imagem de minha
alma, sem santo, sem sino, sem altar ...”
Retribuindo
um cartão ao professor Márcio Auril, ela terminava assim:
“Sua velha e desiludida amiga, Nise”
E
acostumava visitá-la. Aproximava - se o Natal e lembrei-me de que era preciso
ir vê-la. Mas antes disso recebi a notícia de sua partida. Faleceu aos 18 de
dezembro, depois de uma longa e penosa enfermidade, que suportou com resignação
estoica.
Seus
escritos permanecem dispersos.
Referências:
Texto Professor Padre José Raimundo Batista Bechelaine. Data Nascimento: 12/02/1947, Local:
Carmo do Cajuru – MG. Pais: Nagm Antônio Bechelaine e Maria Batista Bechelaine.
Data Ordenação: 01/05/1974. Local: Matriz Sant’Ana – Itaúna – MG. Bispo
Ordenante: Dom Cristiano Frederico Portela de Araújo Pena.