segunda-feira, maio 22, 2017

A PISTOLA DE VACINAÇÃO


*Adilson NOGUEIRA

O jardim de infância Ana Cintra, ficava na esquina da Avenida Getúlio Vargas com Rua Nô do Jove quando lançaram aquela “pistola de vacinação”. No dia da vacinação, chegaram os enfermeiros com aquele revólver. Um dos meus colegas começou a chorar e a gritar: “Vai dar tiro no meu braço! Vai dar tiro no meu braço”. 

Todas as crianças ficaram muito assustadas e amedrontadas. A professora Dona Didi então falou: “quem vai ser o primeiro? ” Todos se entreolharam. Uma menina gritou: “eu vou? ”. Com todo o orgulho de sua coragem, levantou a manga do uniforme e o enfermeiro deu o tiro, quer dizer, a vacina. Ela fez uma “cara” esquisita, mas todos foram tomando coragem e entrando na fila. Essa menina, depois virou policial civil.



*Músico, Artista Plástico, Mestre de Cozinha e Fotógrafo profissional. 

Adilson Nogueira estudou no Jardim  de Infância Ana Cintra no período de 1967.


Texto: Adilson Nogueira

Acervo: Galeria de Fotos Antigas Campanha de Vacinação. Disponível em: http://www.montesclaros.mg.gov.br

Organização: Charles Aquino




ITAÚNA: MÁQUINA VOADORA

HISTÓRIAS E CRÔNICAS EM ITAÚNA MG
Ademar Pereira de Barros foi um dos políticos mais influentes do Brasil, a partir de 1930. Médico, poliglota e filho de pais ricos e influentes, Ademar era influente em São Paulo e fora de seu Estado. Influente, folclórico, com fama de corrupto. Dizem que a ele pertence o "slogan: rouba, mas faz."

Homem polêmico, de muitas realizações e muitas histórias. Cassado três vezes. A última em 1966, pelos militares da Revolução de 1964, movimento que ele apoiou.
Foi duas vezes candidato a presidente da República. Na eleição de Juscelino, ficou em terceiro lugar. Novamente candidato em 1960, em disputa contra Jânio Quadros e Henrique Teixeira Lott, ficou novamente na terceira posição.

Era um homem arrojado. Entre outras habilidades, era também aviador. Na sua campanha em sessenta, Ademar de Barros visitou Itaúna a bordo de um helicóptero. O aparelho baixou no campo de futebol do Ginásio Sant'Ana. Num dia de semana, por volta de duas horas da tarde.

Um alvoroço na cidade. Gente vindo de toda parte, correndo aos magotes para ver de perto a novidade. Se nem avião "teco teco" aparecia em Itaúna, helicóptero era mais novidade ainda. Juntou gente de toda parte, inclusive eu, que nunca tinha visto o tal aparelho na vida. Coisa rara. Oportunidade única de observar de perto a tal máquina voadora.

Ninguém se preocupava com o candidato. Um homem grande e volumoso, de bochechas rosadas. Bonachão, com ampla barriga e calças de linho branco sustentadas por cinto e suspensório.

Fez um rápido discurso, distribuiu apertos de mão e "santinhos" de campanha. O povo admirava o helicóptero. Amontoava ao seu redor, extasiado com a maravilha. Visita rápida. Em pouco tempo o piloto e os assessores do político pediam aos embasbacados itaunenses para se afastarem da aeronave que ia levantar voo. Com muito custo o povaréu atendeu o pedido.

Motor ligado e a enorme hélice girando cada vez mais forte. O campo de futebol do Ginásio não tinha grama. Chão de terra batida. O rotor da geringonça espalhou poeira e pedrinhas a mais não poder. Um bando de gente com os olhos e as roupas cheias de pó. Um outro alvoroço. E lá se foi o candidato a buscar outros votos. Para os que presenciaram a cena, apesar da poeira e os ciscos nos olhos, valeu a pena. Para o candidato, nem tanto. Teve magros votos na terra da Pedra Negra.

Em tempo: Ademar Pereira de Barros tinha um colega de Escola de Medicina em Itaúna. O doutor Oliveiros Rodrigues, natural de Itaguara foi colega do paulista no Rio de Janeiro. Quanto a isso, posso afirmar com toda certeza. Na mesa de trabalho do dr. Oliveiros, tinha um quadro de formatura. Entre os médicos, estava Ademar.


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 10/05/2017. 

Organização: Charles Aquino

domingo, maio 21, 2017

CORREIO DE ITAÚNA: ESTAFETA

O documento abaixo que ilustra o presente texto, é um título de nomeação do cidadão itaunense FRANCISCO FERREIRA DE MATOS para o cargo de "ESTAFETA" entre Itaúna e Serra Azul e provavelmente Itatiaiuçu. ESTAFETA vem de "STAFFA", palavra Lombarda (povos que habitavam o norte da Europa e significava pessoa encarregada entregar documentos e correspondências. O ESTAFETA fazia suas viagens a pé ou a cavalo.

 No caso de Itaúna, a correspondência chegava de locomotiva a vapor (Maria Fumaça) e o Estafeta era encarregado de buscar as eventuais correspondências trazidas e providenciar, junto com o encarregado do Posto dos Correios, a entrega aos destinatários. Conforme informações do Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho, seu pai, Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho (DR. COUTINHO) dizia que o primeiro posto, localizava-se ao lado da antiga Casa Paroquial de Sant’Ana, o que pode ser comprovado por foto de tal imóvel, que realmente tinha ao lado um cômodo. Isto nas décadas de 1910 e 1920.

Naquela época o Departamento de Correios (e mais tarde Telégrafos), era órgão do Ministério de Viação e Obras Públicas. `Pessoalmente lembro-me dos Correios quase defronte à Escola Estadual Dr. Augusto Gonçalves. Ali funcionou por muitos anos.
Quando comecei a trabalhar na falida Companhia ALAITA, ia lá diariamente buscar a correspondência da empresa e ainda me lembro das batidas do telégrafo, operado por Sebastião Nogueira Gomide, o PIU. Em anexo cópia do documento e foto do itaunense nomeado para tal cargo, com data de 04 fevereiro de 1919.





Texto: Juarez Nogueira Franco (In Memoriam)

Arquivo:  Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho

Pesquisa e organização: Charles Aquino

Acervo: Shorpy

ITAÚNA: A ENCHENTE DE 1919

Cavaleiro e Animal Rodaram na Enchente

Nos idos de 1918/1919 mais ou menos, uma lamentável ocorrência numa enchente do Rio São João. Certa tarde, um cidadão da zona rural, residente para as bandas do outro lado do rio, montado no seu cavalo, fora descendo a cava funda abaixo da estrada de ferro, na travessia do Serafim (Armazém situado à Rua Silva Jardim). Ao aproximar-se do matadouro municipal, ele detivera o seu alazão e passara a contemplar o que via pela frente. Era muita água mesmo!
Pouco além do matadouro, no local da água espalhada que procedia da praia, o terreno era mais baixo e essa declividade prosseguia praia acima passando por debaixo do pontilhão da estrada de ferro. A enchente do Rio São João invadia também aquele boqueirão. Mas apesar disso, o cavaleiro não retrocedeu na sua jornada, certamente por um dos motivos abaixo relacionados: talvez por necessidade de chagar a sua casa na tarde daquele dia ou por ser um homem que não temia o perigo. Resolveu enfrentar as águas revoltas do Rio São João, jogando a sua animal água adentro. No entanto, instantes depois, o cavalo já não tomava mais pé e começara a nadar. Ao chegar à bacia da praia, o alazão começou a corcovear em decorrência da correnteza e, num daqueles solavancos, o cavaleiro foi atirado dentro d´água, separando-se do animal. A partir daquele instante, cada qual deveria seguir a lei do “Salve-se quem puder”! O animal aos trancos e barranco, conseguiu safar-se da enchente, ganhando do outro lado da Rua da Ponte. O cavaleiro, porém, foi menos feliz, uma vez que foi arrastado pela correnteza para o leito do rio São João e ia sendo levado rio abaixo, misturando-se com a espuma e as ondas das águas bravias.
No entanto, por mercê de Deus, ele conseguiu agarrar-se com as mãos e cruzar também os pés aos galhos de uma árvore da margem esquerda do rio, precisamente nos fundos do quintal do velho sobrado da Rua da Ponte. Certamente, em decorrência dos embates sofreu contra as ondas agitadas do rio, ele começou a gemer.
Ao mesmo tempo, alguém que chegou da rua, deu a notícia de que havia defronte ao sobrado um cavalo com a arreata molhada, como se estivesse saindo da enchente, o que denunciava que alguém havia rodado correnteza abaixo.
Havia diversas pessoas no quintal do velho sobrado, observando a fúria da enchente. Alguém daquele grupo ouviu os gemidos e avistou também o pobre cavaleiro que se achava agarrado as galhas da árvore e meio oculto pelas suas folhas. Uma das pessoas que se achavam ali arranjou um laço e jogou o lado da argola para o homem. Este, agarrando a corda, passou-a por debaixo dos braços, amarrando-a bem ao seu corpo, apesar do seu estado de apavoramento em que se encontrava. Em seguida os homens que estavam no quintal ordenaram-lhe que se atirasse dentro d´água, o que ele fez sem perda de tempo, tamanha era a ânsia que ele sentia de sair dali. E aqueles que seguravam a ponta do laço, foram puxando-o para fora do rio. Dentro de instantes ele pisava terreno firme novamente, no quintal do velho sobrado. Ainda assustado, ele contou para os seus salvadores, como se sentira apavorado ao ser levado pela correnteza.
 Alguém lhe falou que o seu cavalo estava pastando tranquilamente o capim dos barrancos da Rua da Ponte. Ele, depois de agradecer humildemente aos seus benfeitores com um Deus lhes pague, foi até a rua e ali, montando o seu alazão, atravessou em seguida a ponte de madeira sobre o Rio São João, indo em frente a caminho de sua casa, na zona rural.
 Na verdade, pela graça de Deus, cavaleiro e animal se salvaram das águas furiosas da enchente do rio. Aquele cidadão do meio rural certamente jamais voltou a enfrentar qualquer enchente e muito menos a do Rio São João! ...

Texto: Osório Martins Fagundes (In Memoriam). Fragmentos de Um Passado, pag. 621/622, 1977.
Pesquisa: Charles Aquino


OS BATE PAUS 30's

O texto fornecido oferece um relato histórico detalhado da Revolução de 1930 sob a perspectiva dos habitantes de Itaúna, Minas Gerais. Ele destaca como a cidade, na época com cerca de 5 mil habitantes, foi impactada por eventos nacionais, especialmente pela mobilização das forças locais em apoio à revolução, ainda que com conhecimento limitado sobre o contexto geral do país. A narrativa é construída a partir de testemunhos orais de moradores e figuras importantes da cidade, como Benevides Garcia e o padre Waldemar, e revela tanto o envolvimento popular quanto a visão crítica sobre as promessas não cumpridas pela Revolução de 1930.

O texto enfatiza como a falta de comunicação eficaz na época deixava a população de Itaúna alheia aos eventos maiores do país. Notícias chegavam com atraso, e a população dependia, em grande parte, do que se transmitia localmente. Isso reflete a realidade de muitas cidades do interior naquela época, onde a comunicação limitada condicionava a percepção dos fatos.

 A formação dos "Bate-Paus", grupo civil liderado por Arthur Vilaça, é um elemento principal que ilustra a improvisação local frente à ausência de forças policiais regulares. O uso de porretes em vez de armas de fogo indica a precariedade dos recursos disponíveis, e o nome dado ao grupo reflete a criatividade e a adaptabilidade dos moradores. Esse destacamento improvisado mostra o espírito comunitário e a necessidade de autodefesa em tempos de instabilidade.

Os relatos de pessoas como Benevides Garcia e Cirilo José Gomes trazem uma perspectiva pessoal e emocional sobre os eventos. A menção ao temor e à resistência em participar, como a relutância de Cirilo em usar o lenço vermelho que simbolizava o apoio à Revolução, revela a complexidade das lealdades políticas na época. Esses depoimentos fornecem uma visão intimista e concreta da experiência vivida pelos itaunenses durante a Revolução.

A Revolução de 1930, embora vista com esperança por alguns, como expressa pela Dona Nair ao rezar pelo sucesso do movimento, foi posteriormente vista com ceticismo e até decepção. A dissolução da Câmara Municipal e a nomeação de um conselho consultivo pelo Governo estadual destacam as mudanças políticas locais, mas o sentimento geral, como resumido pelo Dr. Coutinho e o padre Waldemar, é de que a Revolução falhou em cumprir suas promessas. 

O texto termina com uma comparação interessante entre a Revolução de 1930 e a de 1964, sugerindo que a primeira teve mais participação popular, enquanto a segunda foi imposta de maneira mais autoritária. Ambas, no entanto, são vistas como movimentos que, no final, não realizaram as reformas esperadas.

O texto é uma rica fonte de história oral, capturando as memórias e sentimentos de pessoas que viveram um momento crucial na história do Brasil, mas que o vivenciaram de uma maneira muito particular em uma pequena cidade do interior. A obra contribui para uma compreensão mais ampla de como a Revolução de 1930 foi experimentada em diferentes partes do país, longe dos grandes centros urbanos. Além disso, oferece uma crítica implícita às promessas não cumpridas das revoluções, o que se conecta a uma reflexão sobre a eficácia das mudanças políticas na vida das pessoas comuns.

 

 BATE PAUS

Em 1930, pouquíssimas pessoas em Itaúna sabiam o que estava acontecendo no resto do país. No meio das ruas esburacadas de nossa cidade que na época contava com uma população estimada em 5 mil habitantes, só se sabia que o Batalhão itaunense da Força Pública de Minas Gerais – hoje Polícia Militar – tinha sido convocado para reforçar as tropas mineiras na luta contra as forças federais aquarteladas no 12º RI, na Capital.

Padre Waldemar, que na época estudava no seminário em Belo Horizonte, conta que às cinco horas da manhã do dia 4 acordou com sinos da igreja batendo e logo depois ouviu os primeiros tiros. “Eu estava no último ano do seminário e o colégio ficava a 3 km do quartel do 12. Não tive medo do que poderia acontecer. Deus queria assim ...”

  Em Itaúna, com o destacamento policial todo fora. Arthur Vilaça, então chefe do executivo municipal e presidente da Câmara dos Vereadores, convocou seus melhores funcionários e formou o destacamento policial de civis para guarnecer a cidade. Aqueles jovens e fortes senhores que dali por diante manteriam a cidade em ordem ficaram sendo conhecidos como os “ Bate – Paus”. Eles foram chamados assim, porque na falta de armas de fogo, os destacamentos provisórios de cada município, usavam um porrete de madeira.

  Benevides Garcia, 79 anos, fotógrafo e chofer da praça dos mais antigos daqui, era motorista da Câmara na época e lembra como foi convocado: “O Arthur Vilaça mandou que eu comandasse os “Bate-Paus” como sargento e o Enoque como cabo. Entrei contra a minha vontade. Nada foi discutido entre nós sobre o que estava acontecendo. Só esperávamos a vitória da Revolução. ” Outro que também entrou contra sua própria vontade foi o Sr. Cirilo José Gomes, que não concordava com o fato de ter que amarrar no pescoço, lenço vermelho que os identificava.

Os “Bate-Paus” não tiveram muito trabalho para prender os bêbados que viviam aprontando arruaça pela cidade, até apareceu por aqui um bandido muito temido na redondeza. Um tal de Domingos Boca –de-Fogo. “ Até a polícia tinha medo dele”, conta Cirilo. Eu, o Benevides e o Gérson conseguimos prendê-lo. Era noite clara e ele se escondeu numa fazenda no caminho da Várzea da Olaria.  A gente estava numa baratinha e ele a cavalo. Quando nós chegamos, ele já estava debaixo de uma árvore. O Benevides saltou e deu voz de prisão, eu entrei pelo lado esquerdo, bati a mão no arreio do cavalo e a outra no braço dele. Se o homem desce para o lado esquerdo como nós todos do lado direito, ele sapecava fogo e matava todo mundo “

  As adesões ao movimento revolucionário e as notícias que vinham pelo trem com muito atraso, não chegavam a amedrontar a população. O Doutor Coutinho, que já exercia a medicina na época conta que “as adesões eram naturais quase ninguém foi contra. O poder em Itaúna aderiu sem finalidades. Os donos das duas fábricas, que já existiam, queriam era fazer dinheiro”. Dona Nair, sua esposa conta que os que tinham mais instrução chegavam a ficar um pouco sobressaltados. “Chegamos até a rezar pelo sucesso da Revolução. Quando o Getúlio subiu ao poder, saímos em passeata pelas ruas cantando mais ou menos assim: Vivo Getúlio ele é o nosso orgulho. Viva a Aliança é a nossa esperança! Todos os homens, as mulheres e crianças participaram. Só não entravam na passeata as pessoas da sociedade ...”

  Vitoriosa a Revolução, a Câmara foi dissolvida, tendo o Sr. Arthur Contagem Vilaça continuando como prefeito do Poder Legislativo Municipal foi substituído por um conselho consultivo nomeado pelo Governo estadual. Entre os membros desse Conselho, estava o Dr. Coutinho.

  No balanço geral, todas estas pessoas que aqui viveram esse grande momento da história de nossa República, concordam que muitas promessas feitas pelos revolucionários não foram até hoje cumpridas. Por outro lado, afirmam que alguns benefícios, a Revolução trouxe. No entender do padre Waldemar, “toda a obra humana tem os seus defeitos. A Revolução moralizou determinados setores, mas muita gente se aproveitou dela para subir ao poder sem muito esforço. ”

 As reformas trazidas pela revolução não chegaram a modificar a situação. Para o doutor Coutinho “eles propunham muito e acabaram não fazendo nada. Para a época algumas coisas foram resolvidas, mas a situação ficou na mesma. No entanto, a Revolução de 30 teve mais participação popular, enquanto essa de 64 não teve nenhuma. Nenhuma das duas, porém, cumpriram os seus propósitos”.


Pesquisa e análise: Charles Aquino
Texto e fonte: Jornal Panorama Itaunense, pag. 9 (Década 80)
Acervo: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC

BARRANQUEIRO NO VAREJÃO

Estava eu no varejão a escolher verduras; totalmente absorto nessa complicada e delicada tarefa verde e ainda por cima com a compenetrada responsabilidade de atender os pedidos de mamis...quando a senhorinha se aproxima assim do nada e começa sua prosopopeia: " tudo AGROTÓXICO…isto dá câncer na gente...é um absurdo...olha o tomate...puro AGROTÓXICO...nem está chovendo, como eles tem tantas verduras"...e eu ali a escolher inocentemente alguns tomates....Não satisfeita ela continuou..." porque o óleo de soja dá câncer...eu vi na Internet...menino uma coisa horrorosa...as pessoas vão morrer...é tudo VENENO!!!"....
Daí a pouco, como eu não rendia muito a "boa" prosa...ela insatisfeita com o monólogo atacou:" olha o mundo está acabando!"...
Daí eu não me segurei...fuzilei-a com o olhar e disse-lhe: "mas já? “.....
"Puxa vida, iria fazer uns torresmos de barriga para deliciar-me com uma cerveja bem gelada hoje ainda..." E ela, com os olhos esbugalhados e condenatórios para mim: " Mas o senhor é DOIDO!"...Eu tomo RIVOTRIL todos os dias!!! ...
E eu receitei-lhe mansamente ..."ah boba...troca isso por rum com coca...vai ver que delícia é..."
Prof. Luiz Mascarenhas


Acervo: Shorpy

Organização e arte: Charles Aquino

ITAÚNA: AFOGADELA DO PALHAÇO


Outra passagem relacionada com o Rio São João me foi revelada também por D.ª Clotilde. Ela se casara no ano de 1920 e passara a residir nas proximidades da estação local, hoje, Rua D.ª Cota.

Periodicamente, determinado Circo de Cavalinhos, (como era conhecido pelo povo) dava os seus espetáculos na cidade e era seu costume permanecer aqui boas temporadas. No decorrer do tempo, uma empregada de D.ª Clotilde ficou noiva de um dos palhaços do circo.

Vez por outra, o referido palhaço gostava de tomar banho e nadar no açude do Rio São João, junto aos moinhos de fubá. Certo dia, ele voltara ao referido local para a prática de seu esporte de natação. Constantemente, ele gostava de mergulhar na água, dando as suas braçadas lá pelo fundo do açude.

Numa dessas vezes, ele permaneceu demorando muito debaixo d'água. Alguns meninos que estavam por ali, admirando as proezas do nadador, notando que o palhaço demorava muito a voltar à tona, deram o alarme e dentro de poucos instantes ajuntaram diversas pessoas ao redor daquele represamento d'água.

Alguns dos homens ali reunidos mergulharam na água, a fim de encontrar o corpo do infeliz palhaço. Depois de alguns mergulhos e buscas, acharam-no finalmente, trazendo à tona.

O cadáver foi levado até a pracinha defronte à venda do Serafim. D.ª Clotilde foi também ver o corpo do noivo de sua empregada. Esta ficou inconsolável com a ocorrência, vendo morto o seu noivo.

Ali, ao redor do morto, havia comentários de que o palhaço pulara dentro d'água logo após o almoço, o que lhe ocasionara uma congestão. Comentário comum na boca do povo para explicar tais ocorrências.

A verdade é que o palhaço que fizera rir tantas vezes a criançada da cidade e também adultos foi tragado pelas águas do Rio São João, entregando a sua alma a Deus na terra de Santana! . . . certamente, este seu fim já estava registrado na sua conta corrente do Céu! . . . 

Esta lamentável ocorrência deu-se no ano de 1923.




Texto: *Osório Martins Fagundes (In memoriam). Fragmentos de um Passado, ano 1977, pag. 623.
Organização: Charles Aquino
Acervo: Shorpy

sexta-feira, maio 19, 2017

HISTÓRIA: FÓRUM DA COMARCA DE ITAÚNA

FÔRO DE ITAÚNA
        (Década 50)

Itaúna é hoje comarca de 2ª estância. Das mais disputadas. E se acha sob a jurisdição do Dr. Geraldo Azevedo da Costa Rios, juiz íntegro e competente, trabalhador e cavalheiro.

Foi elevada a termo judiciário, anexo à comarca de Pará de Minas, segundo o apreciado historiador patrício Dornas Filho, pela lei nº 375, de 19 de setembro de 1903, no governo do eminente estadista Francisco Sales, cuja instalação se dera festivamente a 21 de abril do ano imediato, com a seguinte organização:

Juiz Municipal
Adjunto de Promotor
1º Tabelião
2º Tabelião
Contador, Partidor e Distribuidor
Oficial de Justiça

Como termo anexo, Itaúna vivera quase 21 anos, sob a jurisdição dos seguintes magistrados, cultos, probos e honestos:
Domingos da Rocha Viana
1904 a 1908
Alexandre Artur Pereira da Fonseca
1908 a 1916
Alfredo Alves de Albuquerque
1916 a 1923
Jacinto Alves Pereira
1923 a 1925

Nesse período, o cartório do 1º ofício, atualmente sob a direção do tabelião Manoel Gonçalves de Souza, fora sucessivamente ocupado por José Viana Gonçalves e Rossini Gonçalves de Matos.

Presidiram-lhe as animadas sessões do Tribunal do Júri, com rara sabedoria e urbanidade, o Dr. Pedro Nestor de Sales e Silva, digno e querido Juiz de Direito da comarca de Pará de Minas, tendo sido a Promotoria Pública dignificada pelo talento e pugnacidade de Carlos Soares da Silva, do Cel. Fernando Otávio, do provisionado Antônio da Silva Praxedes, de Carlos Meireles e de Aristides Milton.

Como advogados residentes no termo, militavam com proficiência em seu fôro os provisionados:
Enéas Gonçalves Chaves
Cel. Laurindo Nogueira de Faria
Joaquim Cândido Louzada
Oscar Badaró
Nicolau Soares
Tomaz de Andrade, bacharel em direito
Cáio Nelson de Sena, bacharel em direito
Mário Gonçalves de Matos, bacharel em direito
Afonso Santos, bacharel em direito

Nesse tempo frequentava ainda o seu fôro, em tertúlia com os causídicos locais, os famosos advogados das comarcas de Belo Horizonte, Pará de Minas e Curvelo:
Antônio Benedito Valadares Ribeiro
Fernando de Melo Viana
Albertino Drumond
Mário de Lima
Viana do Castelo

Em 24 de janeiro de 1925, o presidente do Estado, Dr. Fernando de Melo Viana, reconhecendo no Termo os requisitos necessários e indispensáveis, decretou pela Lei nº 879 a sua emancipação judiciária, elevando-o a sede de comarca, cuja instalação se dera ruidosamente a 22 de setembro do mesmo ano, com a posse:
Juiz de Direito
Dr. Niso Moreira dos Santos Pena
Promotor de Justiça
Ivo Rosa de Freitas
Escrivão do Crime

O Dr. Eliseu Marcos Jardim, uma das maiores figuras da magistratura mineira, pelo talento, pela cultura, pela integridade e, sobretudo, pela peregrina bondade que lhe marcava todos os atos da vida, como judiciosamente salientara o historiador Dornas Filho, em sua apreciada monografia sobre Itaúna, falecera em 21 de março de 1934, no exercício do cargo a que tanto dignificara. Fora substituído interinamente pelo Dr. José Pereira Brasil, Juiz Municipal do Termo anexo de Divinópolis.

Com o desaparecimento do Dr. Eliseu, Itaúna se arregimentou pela volta do seu dinâmico Promotor de Justiça, que havia sido nomeado Juiz de Direito da comarca de São Francisco. O Governador do Estado, Benedito Valadares Ribeiro, atendendo ao apelo dos itaunenses, houve por bem premiar a notável atuação do Dr. Niso Moreira dos Santos Pena, frente a sua Promotoria Pública, removendo-o da comarca de São Francisco para a de Itaúna, preenchendo assim dignamente a vaga deixada pelo Dr. Eliseu.

Nesse delicado e honroso cargo, continuou o Dr. Niso cercado do respeito, da estima e do apreço de seus jurisdicionados, pela dignidade, pela inteireza moral e pelo seu amor ao trabalho, até 1953, quando fora promovido por merecimento para a comarca de Conselheiro Lafaiete, em homenagem talvez à memória do inolvidável mestre do direito, depois de ter prestado à Itaúna 28 anos de inestimáveis serviços, 9 anos como Promotor de Justiça e 19 como Juiz, num verdadeiro recorde de abnegação.

Durante os seus 19 anos de magistratura, contou Dr. Niso sucessivamente com a colaboração segura e proficiente dos seguintes Promotores de Justiça:
Dr. Carlos Alves de Vasconcelos
Moacir Duarte Pessoa
João de Paula e Silva
Teódulo Pereira
José Valeriano Rodrigues

Nessa segunda etapa, abrilhantaram o fôro de Itaúna, onde residiam, os bacharéis e eminentes advogados:
Mário Gonçalves de Matos
Afonso Santos
Agenor de Sena
Joaquim Augusto Pereira Lima
Carlos Campos
Alcides Gonçalves de Souza
Mário Soares Nogueira
Hélio Chaves
Antônio Basiliano Adônico Barroca
Fajardo Nogueira de Souza
João Gonçalves Nogueira
Clélio Gonçalves de Araújo
Miguel Augusto Gonçalves de Souza
 Atualmente, Fajardo Nogueira de Souza, Hélio Gonçalves de Souza, Heli Gonçalves de Souza, José Luiz Gonçalves Guimarães, José Alves da Silva e Guaracy de Castro Nogueira enchem de animação, talento e cultura o velho tempo do direito, onde pontificaram outrora luminares das nossas letras jurídicas.

Dos advogados recentemente falecidos, Itaúna guarda saudosa memória dos nomes de Tomaz de Andrade e de Joaquim Augusto Pereira Lima, ardorosos paladinos na luta pelo direito e orgulho de seu fôro.

No perpassar dos anos, o tabelião Rossini Gonçalves de Matos, que tinha por auxiliar o escrevente Antônio de Andrade Souza, fora substituído interinamente no cargo por José Orozimbo Moreira e efetivamente por Manoel Gonçalves de Souza. O tabelião do 2º ofício, Francisco de Araújo Santiago, professor, político sagaz, com grande influência a alta política itaunense, pelo seu filho José Edwards Santiago, que é auxiliado pela escrevente Diva Santiago. Criara-se mais um cartório do 3º ofício, que fora ocupado pelo Dr. Mário Melo.

No cartório do crime, o escrivão Ivo Rosa de Freitas fora substituído por Juvenal Pereira Júnior e este por Azurem Porto. No cargo de oficial de justiça, o Sr. Francisco da Cunha Rabelo por Laurindo Leão e este por José Ferreira Júnior, o mais antigo oficial de justiça em todo o Estado. Como contador, partidor e distribuidor, o Sr. Aureliano Lopes Cançado, fora seguidamente substituído no cargo pelo Cel. Laurindo Nogueira de Faria, Artur de Matos e Gesner Faria Matos,

Primitivamente, funcionaram como avaliadores judiciais os senhores Urquiza Nogueira e Olímpio Nogueira de Souza. O primeiro substituto por José   Soares Nogueira (Juca do Berto) e este por Jonatas Gonçalves de Queiroz. O segundo por Rubens Melo.

Como agrimensores, prestaram relevantes serviços ao fôro, o professor José Gonçalves de Melo, Ulisses Fadini e Joaquim Marinho de Mendonça, da comarca de Pará de Minas.

O fôro de Itaúna se distingue pela correção impecável com que sempre agiram os seus membros juízes ou advogados, tabeliães ou o mais humilde de seus serventuários.

Este é o histórico em rápido esboço, e sem comentário do Fôro de Itaúna, da sua criação aos nossos dias, feito quase de memória, para que o mesmo não ficasse ausente neste número da revista da Acaiaca, dedicado ao nosso município.  





REFERÊNCIAS:

Texto: Mário Soares

Pesquisa: Charles Aquino.

Organização: Charles Aquino

Acervo: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho

Fonte: Revista Acaiaca nº 56, org. Celso Brant,1952, p.185,186,187.