sábado, maio 16, 2026

O “MONSTRO” EM ITAÚNA (P2)

VIGILÂNCIA E DITADURA ITAÚNA MG

Doutor Simonini nos arquivos do DOPS

(Parte 2)

A presença do Dr. Simonini nos informes, contudo, não se restringe à esfera discursiva. Em diferentes registros, sua atuação é captada a partir de sua circulação em espaços considerados politicamente sensíveis.

Em 1984, ele é listado entre os participantes de eventos que reuniam representantes do PMDB, do PT e do PDT, além de setores do movimento estudantil, em contextos marcados por críticas ao regime e pela defesa de reformas políticas.

No mesmo ano, sua presença é novamente registrada durante a IV Semana de Estudos Jurídicos em Itaúna (MG), encontro que reuniu autoridades locais, acadêmicos e representantes de diferentes correntes políticas em torno de debates marcados pela crítica institucional e pela defesa da reorganização democrática.

Organizada pela Diretoria Acadêmica da Faculdade de Direito da Universidade de Itaúna, em parceria com a Prefeitura Municipal e a União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais (UEE/MG), a iniciativa configurou-se como espaço de convergência entre poder público, meio universitário e movimentos estudantis, evidenciando a intensidade das articulações políticas e intelectuais que marcavam o contexto da abertura democrática.

À luz desse cenário, a presença do Dr. Simonini, já identificado pelos órgãos de informação, não apenas reafirma sua inserção em circuitos de debate estratégico, mas também evidencia a atenção dispensada pelos aparelhos de vigilância a ambientes de circulação de discursos críticos e articulações políticas.

A atuação do Dr. José Simonini Filho nesse encontro acadêmico, realizado em 1984, deve ser compreendida à luz de sua posição institucional naquele momento, quando exercia a presidência da Câmara Municipal de Itaúna (1983–1984).

Longe de representar uma presença meramente protocolar, sua participação revela a articulação entre o poder legislativo local e os espaços universitários de debate político em um contexto de transição democrática.

Ao integrar um fórum que reunia juristas, lideranças estudantis e agentes políticos envolvidos nos debates sobre a Constituinte, reformas institucionais e críticas à ideologia de segurança nacional, Dr. Simonini atuava simultaneamente como representante institucional e participante de redes de circulação política.

Em um cenário marcado pela vigilância dos órgãos de informação, sua presença, enquanto presidente do Legislativo municipal, ampliava o significado político da iniciativa, indicando não apenas engajamento individual, mas também a permeabilidade das instituições locais às pautas de redemocratização. 

Assim, sua atuação na Semana Jurídica pode ser interpretada como expressão da convergência entre poder institucional, debate público e monitoramento estatal, reforçando seu papel nos circuitos políticos observados pelo regime.

A relevância desse episódio torna-se particularmente evidente na documentação produzida pelos órgãos de informação acerca do evento, cujos registros revelam um nível minucioso de acompanhamento, contemplando falas, participantes, articulações políticas e diferentes momentos do encontro com riqueza de detalhes. 

O nível de detalhamento desses informes sugere a hipótese de acompanhamento direto do evento, possivelmente por agentes ou colaboradores vinculados aos órgãos de informação, interpretação reforçada pela precisão das descrições presentes nos relatórios produzidos pelo SNI.

Para além do acompanhamento de figuras específicas, os órgãos de vigilância buscavam compreender dinâmicas de circulação política, redes de sociabilidade e espaços de formação de discurso crítico no contexto da abertura democrática.

Diante da densidade desse conjunto documental, a IV Semana de Estudos Jurídicos da Universidade de Itaúna emerge como um importante espaço de observação das relações entre circulação política, debate acadêmico e vigilância estatal nos anos finais do regime militar, constituindo objeto que demandará análise específica em estudo posterior.

A atuação do Dr. Simonini no contexto da campanha pelas “Diretas Já” permite observar, com especial nitidez, a articulação entre vigilância, circulação política e controle estatal. Sob essa perspectiva, destaca-se sua participação na organização de uma caravana de lideranças políticas de Itaúna com destino a Brasília, com o objetivo de acompanhar a votação da “Emenda Dante de Oliveira”.

Entre os participantes de Itaúna/MG, segundo registros do Serviço Nacional de Informações (SNI), destacavam-se o vereador José Simonini Filho, associado ao “PMDB/MG” e identificado pelo código “B1492809”, bem como o prefeito Francisco Ramalho da Silva Filho, também vinculado ao “PMDB/MG” e mencionado em outro documento sob o código “B1493565”. Também apareciam nos informes os vereadores Walter Marques da Silva e João José Joaquim de Oliveira, igualmente relacionados ao “PMDB/MG”.

Os registros dos órgãos de informação mencionavam ainda o jornalista Célio Silva, do Jornal Brexó, associado ao “PT/MG”. Em outros documentos relativos à imprensa itaunense já analisados, Célio aparecia identificado pelo código “B0783936”. Os informes consultados mencionavam também o Dr. Peri Tupinambás, igualmente vinculado ao “PT/MG”.

A relevância desse episódio reside não apenas no fato em si, mas na possibilidade de sua apreensão a partir de diferentes registros documentais. Informes produzidos pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) já indicavam previamente a participação do Dr. Simonini e de outras lideranças locais nessa mobilização, evidenciando que o deslocamento e a articulação política desses sujeitos eram objeto de acompanhamento por parte dos órgãos de informação.

Essa mesma mobilização é posteriormente registrada pelo Jornal Brexó, em edição de 28 de abril de 1984, que relata a tentativa de deslocamento da caravana e sua interrupção por forças de segurança ao longo do trajeto.

A matéria descreve a presença de militares e policiais armados, a instalação de barreiras nas estradas e a impossibilidade de prosseguimento da viagem, corroborando, em chave narrativa e pública, um evento que já havia sido objeto de registro pelos órgãos estatais (SNI).

A dimensão concreta desse bloqueio é evidenciada de forma particularmente expressiva no relato publicado pelo periódico, que descreve o episódio nos seguintes termos:

“Essas chapas cheias de pregos pontiagudos iam-se afunilando fazendo os motoristas entrar num corredor e a cada metro, soldados do exército, policiais de Goiás e Federal, todos armados de metralhadora e fuzil e outros aparatos militar. [...] De posse dos nossos documentos, folheavam enorme lista à procura de nossos nomes. Não encontrando-os na relação (lista de criminosos? subversivos?) anotaram nossos nomes noutra folha especial com todos dados possíveis. Enquanto isso um militar do exército chama Ramalho: Sinto muito, mas solicitamos que todos retornem, não podem passar [...] éramos impedidos de ir à Brasília [...] e tivemos que voltar.”

O relato explicita, em linguagem direta, os mecanismos de controle empregados no bloqueio da caravana, revelando não apenas a presença ostensiva de forças de segurança, mas também práticas de identificação e registro dos indivíduos presentes.

A menção às listas de nomes e à classificação implícita dos participantes como potenciais “subversivos” reforça a interpretação de que tais mobilizações eram previamente monitoradas, articulando vigilância informacional e contenção prática da ação política.

A articulação entre essas duas fontes indica não apenas a ocorrência do episódio, mas o modo como ele foi simultaneamente vivido, observado e registrado. De um lado, a vigilância estatal, que antecede e acompanha a ação política; de outro, a imprensa local, que transforma o acontecimento em narrativa pública. Tal sobreposição demonstra que a vigilância não operava de forma posterior, mas integrada ao próprio desenrolar dos eventos.

Desse modo, o episódio da caravana evidencia que o aparato de vigilância não se limitava à produção de informações, mas se articulava a práticas concretas de contenção da ação política. Ao impedir o deslocamento de lideranças locais até Brasília, o Estado não apenas monitorava, mas atuava diretamente na limitação da participação política, demonstrando a continuidade de mecanismos de controle mesmo no contexto de abertura.

Ao mesmo tempo, a cobertura jornalística revela os efeitos concretos desse monitoramento, tornando visíveis práticas de contenção que não aparecem de forma explícita nos documentos de informação. O bloqueio da caravana, ao ser narrado pela imprensa, torna visível a dimensão prática do controle estatal.

A participação do Dr. Simonini nesse episódio reforça sua inserção em articulações que extrapolavam o âmbito municipal, ao mesmo tempo em que indica o acompanhamento dessas mobilizações pelos órgãos de informação. 

A partir da análise conjunta dessa documentação, torna-se possível compreendê-lo não como um ator local isolado, mas como um agente inserido em múltiplas dimensões da vida política durante a abertura democrática, incluindo aspectos discursivos, institucionais, partidários e relacionais.

A dimensão partidária de sua atuação torna-se evidente em documentação de 1986, relativa à impugnação da chamada “Chapa Alternativa” do PMDB mineiro. Nesse informe, Dr. Simonini figura entre os candidatos vinculados ao grupo cuja candidatura foi contestada no âmbito do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais.

Ainda que o documento não atribua qualificações ideológicas diretas aos envolvidos, sua inclusão nesse conjunto revela sua inserção em disputas internas do partido, indicando que sua trajetória também se desenvolvia no interior das dinâmicas de reorganização política que marcaram o período de transição.

A análise conjunta dessa documentação permite ultrapassar a identificação de ocorrências pontuais e indica a existência de um sistema estruturado de produção, circulação e interpretação de informações que operava de forma contínua ao longo do regime.

Mais do que registrar fatos, os órgãos de informação construíam narrativas, classificavam indivíduos e estabeleciam conexões que, muitas vezes, antecediam a própria comprovação empírica das suspeitas levantadas, como evidenciado na produção de registros que sistematizavam informações biográficas, institucionais e discursivas na forma de perfis políticos organizados.

Nesse contexto, a recorrente presença do Dr. José Simonini Filho nos registros do DOPS e do SNI não deve ser interpretada como evidência de atuação clandestina ou de centralidade “subversiva”, mas como indicativo de sua inserção em espaços considerados politicamente relevantes pelos órgãos de informação.

Sua trajetória evidencia a ampliação do monitoramento sobre sujeitos atuantes em instituições públicas, universidades, imprensa local e circuitos legítimos de participação política, revelando as ambiguidades da própria abertura democrática brasileira, marcada pela coexistência entre ampliação do debate público e permanência de mecanismos ativos de vigilância e controle.

Ao longo do período analisado, observa-se que a vigilância não desaparece com a abertura política, mas se reconfigura, adaptando suas formas de registro e acompanhamento às novas condições do regime. A passagem de uma linguagem explicitamente acusatória para descrições mais relacionais não implica a redução do controle, mas sua reorganização em bases mais difusas e sistemáticas.

Nesse contexto, os documentos analisados não revelam apenas os indivíduos vigiados, mas também o próprio funcionamento do aparato estatal durante a abertura política. Ao produzir registros, estabelecer conexões e acompanhar práticas sociais e políticas, os órgãos de informação construíam formas específicas de leitura da realidade, evidenciando mecanismos de intervenção e controle que continuaram operando mesmo em meio ao processo de redemocratização.

Nesse sentido, os documentos produzidos pelo DOPS, pelo SNI e por outros órgãos de informação não revelam apenas a trajetória do Dr. José Simonini Filho, mas também as formas pelas quais o aparato estatal acompanhava a vida política em cidades do interior durante os anos finais da ditadura.

Em Itaúna, tal como em diversas cidades brasileiras, a vigilância não incidia apenas sobre práticas clandestinas, mas alcançava espaços institucionais, universidades, jornais, movimentos estudantis, discursos públicos e redes locais de sociabilidade.

Décadas depois, esses arquivos permanecem não apenas como vestígios da vigilância estatal, mas como testemunhos das formas pelas quais o regime buscou interpretar, acompanhar e administrar a vida política brasileira mesmo durante o processo de abertura democrática.

 

Nota Documental:

Esta reportagem foi elaborada a partir de documentos do DOPS/MG pertencentes ao acervo do Arquivo Público Mineiro (APM), bem como de registros do Serviço Nacional de Informações (SNI) consultados por meio do Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), além de outras fontes documentais relacionadas ao período da ditadura militar brasileira.

Os termos e classificações reproduzidos refletem a linguagem e os enquadramentos produzidos pelos próprios órgãos de vigilância da época, sendo analisados em perspectiva histórica e documental.

A pesquisa também contou com diálogo direto e levantamento de informações junto ao Dr. José Simonini Filho, incluindo a apresentação da documentação utilizada e a realização de questionário complementar sobre os episódios abordados.

Charles Galvão de Aquino — Historiador. Registro nº 343/MG.


REFERÊNCIAS

FONTES DOCUMENTAIS

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84009914. Conferência de José Maria Rabelo, presidente regional do PDT em Minas Gerais, em Itaúna (MG)

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83008922. José Simonini Filho, vereador eleito pelo PMDB, Itaúna (MG). 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83035633. Fundação de Ensino Superior de Itaúna (MG): posse dos diretórios estudantis.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010383. IV Semana de Estudos Jurídicos em Itaúna (MG). 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 86012432. Impugnação da Chapa Alternativa do PMDB de Minas Gerais. 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010318. Campanha pelas eleições diretas para a Presidência da República em Minas Gerais. Arquivos: d0001de0003; d0002de0003; d0003de0003. 

BRASIL. Ministério do Exército. I Exército. 4ª Região Militar/4ª Divisão de Infantaria. Estado-Maior – 2ª Seção. José Simonini Filho (médico e professor). Belo Horizonte, 28 jan. 1969. Documento confidencial. Arquivo Público Mineiro (APM), Pasta 4024, f. 239-240. Acesso em: 4 abr. 2026.

JORNAL BREXÓ. Itaúna, n. 201, 28 abr. 1984. p. 1 e 8.

REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES

A GAZETA. “Monstro”: SNI se espalhou por 249 ministérios e órgãos durante a ditadura. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/es/politica/monstro--sni-se-espalhou-por-249-ministerios-e-orgaos-durante-a-ditadura-03I9. Acesso em: 8 maio 2026.

BBC NEWS BRASIL. Como funcionava o SNI, o “monstro” da repressão criado pela ditadura militar há 60 anos. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz77xg4zIrpo. Acesso em: 8 maio 2026.

CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA. Presidentes: José Simonini Filho. Disponível em: https://www.cmitauna.mg.gov.br/portal/presidentes. Acesso em: 9 maio 2026.

 

sábado, maio 09, 2026

O “MONSTRO” EM ITAÚNA (P1)

Itaúna sob Vigilância: os documentos secretos do DOPS e SNI

Doutor Simonini nos arquivos do DOPS

(Parte 1)

Ao longo das décadas da ditadura militar brasileira, diferentes cidadãos, instituições e espaços de sociabilidade passaram a integrar os registros produzidos pelos órgãos de vigilância e informação do Estado. 

Em Itaúna (MG), documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e de setores militares revelam o monitoramento de médicos, professores, religiosos, lideranças políticas, estudantes e até veículos da imprensa local entre os anos de 1969 e 1986.

Nesse contexto, a trajetória documental do médico e político Dr. José Simonini Filho surge de forma recorrente nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação, frequentemente articulada à atuação do padre holandês Antônio Wiemmers, de setores estudantis e do próprio Jornal Brexó, cuja circulação e conteúdo também passaram a integrar os mecanismos de observação estatal.

Mais do que acompanhar indivíduos considerados “subversivos”, a vigilância avançava sobre diferentes dimensões da vida social, produzindo relatórios, cruzando informações e construindo perfis políticos ao longo do tempo.

Décadas depois, a frase atribuída ao general Golbery do Couto e Silvacriei um monstro — permanece como uma das sínteses mais contundentes sobre a dimensão alcançada pelos aparatos de informação durante o regime militar.

A documentação analisada nesta reportagem especial permite observar como esse sistema também se fazia presente em escala local, articulando vigilância política, circulação de discursos públicos e acompanhamento contínuo de atores sociais em cidades do interior mineiro.

A análise da trajetória do Dr. José Simonini Filho, a partir da documentação produzida pelos órgãos de repressão e informação do Estado brasileiro, permite identificar não apenas a recorrência de seu nome em diferentes registros, mas, sobretudo, a continuidade de sua inserção nos circuitos de vigilância ao longo de distintas fases do regime.

Ao articular documentos oriundos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), de setores do Exército e do Serviço Nacional deInformações (SNI), evidencia-se não apenas a permanência da vigilância, mas também a transformação de suas formas, da suspeição ideologicamente orientada ao monitoramento relacional e sistemático característico da abertura política.

Os primeiros registros, datados de 1969 e produzidos no âmbito da 4ª Região Militar, já indicam a inscrição do Dr. Simonini nos sistemas de vigilância estatal. Tal caracterização revela não apenas a observação de suas práticas, mas sua inserção em categorias ideológicas próprias do regime, nas quais a crítica política era interpretada como desvio e potencial ameaça.

Essa lógica torna-se ainda mais evidente na documentação produzida pelo DOPS em outubro de 1971. Em correspondência enviada ao delegado de polícia de Itaúna, o órgão solicitava “investigações sigilosas” sobre supostas reuniões consideradas “suspeitas” realizadas na residência do cirurgião-dentista Mário Alves de Souza, das quais participariam, o “Dr. José Simonini Filho e o padre holandês Antônio Wiemmers e outros”.

A resposta encaminhada pela autoridade policial local revela aspectos significativos da lógica de produção dessas informações. O teor do documento é revelador não apenas pelo conteúdo, mas pelo nível de detalhamento mobilizado: são mencionados endereço específico, identificação profissional dos envolvidos e a possível recorrência temporal dos encontros.

Após comentar a suposta realização de reuniões “comunistas” na cidade, o delegado passa a apresentar uma espécie de perfil político do Dr. Simonini, estruturado em tópicos numerados, nos quais se misturam dados profissionais, impressões pessoais, rumores e interpretações ideológicas. O relatório registrava:

1.    “O sr. Simonini é médico do INPS local e exerce certa influência na classe operária desta cidade”;

2.    “É professor no Ginásio Industrial e Estadual ‘Dona Judith Gonçalves’, onde leciona ciências naturais”. Esse Ginásio está localizado no Bairro Santanense, o principal da cidade;

3.    “O Dr. Simonini é um antimilitarista por excelência, perigosíssimo e, segundo ouvi dizer, costumava atacar a Revolução de 1964”;

4.    “No mesmo Ginásio do item 2º, leciona também o holandês Padre Antônio Wiemmers, de que falarei posteriormente”;

5.    “No Ginásio Industrial e Estadual “Dona Judith Gonçalves” que tem como Diretor e Dr. Décio Gonçalves, nunca foi hasteada a Bandeira do Brasil”.

Mais do que comprovar práticas efetivamente subversivas, o documento evidencia a forma como os órgãos de vigilância articulavam informações objetivas, comentários pessoais, percepções cotidianas e elementos não verificados na construção de perfis considerados politicamente sensíveis.

A própria expressão “segundo ouvi dizer”, utilizada no relatório, revela que parte dessas interpretações circulava em um terreno marcado por rumores e avaliações subjetivas posteriormente incorporadas aos registros oficiais do aparato repressivo.

Sob essa perspectiva, a inclusão do Dr. José Simonini Filho nesses documentos não deve ser interpretada como evidência automática de envolvimento em atividades clandestinas, mas como parte de um processo mais amplo de enquadramento político, no qual determinados indivíduos passavam a integrar circuitos permanentes de observação estatal.

Mais do que revelar exclusivamente o objeto vigiado, esses registros tornam visível o próprio funcionamento da lógica repressiva, baseada na produção contínua de suspeitas, classificações e conexões políticas.

Nesse contexto, a vigilância não se dirigia exclusivamente a indivíduos isolados, mas buscava mapear conexões entre diferentes atores sociais, incluindo profissionais liberais, agentes educacionais e membros do clero.

A presença do padre holandês Antônio Wiemmers, pároco do bairro Santanense, nos registros em que também figura do Dr. José Simonini Filho, revela-se particularmente significativa, na medida em que evidencia a ampliação do escopo da vigilância para além do campo político formal e alcança também espaços religiosos, educacionais e comunitários.

Sua recorrência nos documentos, frequentemente associada a qualificações fortemente negativas, nas quais é descrito como “elemento perigoso”, “subversivo” e “antimilitarista”, evidencia que lideranças religiosas com inserção local relevante eram percebidas pelos órgãos de segurança como potenciais focos de influência e desestabilização.

Importa destacar que tais caracterizações emergem de um enquadramento próprio da lógica repressiva, devendo, portanto, ser analisadas com cautela metodológica. Cabe observar, que parte dos registros em que Dr. Simonini é mencionado encontra-se articulada à atuação do referido sacerdote, o que confere especial relevância a esse conjunto documental.

Por essa razão, a análise mais aprofundada desse conjunto documental, especialmente no que se refere à construção discursiva sobre o padre Antônio Wiemmers, será retomada em seção específica.

Documentos posteriores, como os de 1973, reiteram essas percepções, reforçando a continuidade das interpretações construídas anteriormente. A repetição de acusações e qualificações revela que a vigilância operava por acumulação e sedimentação de informações, consolidando perfis políticos ao longo do tempo, independentemente da produção de novas evidências.

Ao longo da década de 1980, já no contexto da abertura política, observa-se uma inflexão significativa nas formas de registro, sem que isso implique a interrupção da vigilância. Os informes produzidos pelo SNI e pela Polícia Militar passam a privilegiar o acompanhamento de atividades públicas, como discursos, eventos acadêmicos e articulações partidárias, substituindo, em grande medida, a linguagem explicitamente acusatória por uma descrição mais relacional.

Em 1983, por exemplo, o Dr. Simonini, então vereador pelo PMDB em Itaúna e presidente da Câmara Municipal, aparece em registros dos órgãos de informação durante sessão legislativa na qual criticava a violência policial, associando-a ao cenário político nacional sob a presidência do general João Figueiredo

O episódio repercutiu inclusive em meios de comunicação locais, evidenciando que seus posicionamentos públicos continuavam a integrar os mecanismos de acompanhamento estatal.

Outro elemento particularmente relevante no documento é a incorporação, como anexo, de recortes do jornal Brexó, veículo que já havia sido objeto de monitoramento no contexto da imprensa itaunense. A presença desse material indica que os órgãos de informação não apenas produziam seus próprios registros, mas também integravam conteúdos da esfera pública à construção de seus dossiês, ampliando o alcance da vigilância para além do campo institucional.

Sob essa perspectiva, o documento evidencia uma articulação entre vigilância estatal e circulação de discursos públicos, na qual a imprensa local passa a ser não apenas observada, mas também utilizada como fonte para a produção de inteligibilidade sobre o cenário político.

Ainda que o tom dos informes já se apresentasse menos explicitamente acusatório, a recuperação de “antecedentes” demonstra a permanência de uma lógica de interpretação que articulava passado e presente na construção de perfis políticos.

Nesse contexto, o documento produzido pelos órgãos de informação reunia dados biográficos, trajetória profissional, atuação institucional e posicionamentos públicos, articulando diferentes temporalidades na elaboração de uma narrativa contínua sobre sua atuação. 

Tal estrutura revela que a vigilância já não se limitava à observação de eventos isolados, mas operava por meio da organização sistemática de informações acumuladas, permitindo ao Estado produzir leituras mais amplas e duradouras sobre determinados sujeitos.

Essa continuidade também se expressa na recorrência de sua presença em eventos considerados politicamente relevantes. Nesses registros, Dr. Simonini aparece como agente inserido em múltiplos circuitos de sociabilidade, sendo acompanhado não apenas por suas falas, mas por sua circulação em ambientes que reuniam diferentes setores da oposição.

Um elemento particularmente revelador dessa continuidade é a atribuição de identificadores individuais, como o código “B1492809”, associado ao nome do Dr. Simonini em diferentes documentos ao longo da década de 1980. 

A manutenção desse código indica a existência de sistemas estruturados de indexação no interior do aparato de inteligência, permitindo o cruzamento de informações, a recuperação de antecedentes e o acompanhamento contínuo de determinados indivíduos por diferentes órgãos de segurança.

A recorrência desse identificador sugere que Dr. Simonini não era apenas mencionado em informes circunstanciais, mas integrava um universo de indivíduos cuja atuação era objeto de registro sistemático, evidenciando uma dimensão mais estruturada e duradoura da vigilância estatal.

Essa lógica de enquadramento se manifesta também em outros registros do período. Em informe referente à cerimônia de posse de diretórios estudantis da Fundação de Ensino Superior de Itaúna (FENSUPI), Dr. Simonini aparece como autoridade presente e orador, defendendo a estatização do ensino e a gratuidade universitária.

 Nota Documental:

Esta reportagem foi elaborada a partir de documentos do DOPS/MG pertencentes ao acervo do Arquivo Público Mineiro (APM), bem como de registros do Serviço Nacional de Informações (SNI) consultados por meio do Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), além de outras fontes documentais relacionadas ao período da ditadura militar brasileira.

Os termos e classificações reproduzidos refletem a linguagem e os enquadramentos produzidos pelos próprios órgãos de vigilância da época, sendo analisados em perspectiva histórica e documental.

A pesquisa também contou com diálogo direto e levantamento de informações junto ao Dr. José Simonini Filho, incluindo a apresentação da documentação utilizada e a realização de questionário complementar sobre os episódios abordados.

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº343/MG)

 

REFERÊNCIAS

FONTES DOCUMENTAIS

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84009914. Conferência de José Maria Rabelo, presidente regional do PDT em Minas Gerais, em Itaúna (MG)

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83008922. José Simonini Filho, vereador eleito pelo PMDB, Itaúna (MG). 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83035633. Fundação de Ensino Superior de Itaúna (MG): posse dos diretórios estudantis.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010383. IV Semana de Estudos Jurídicos em Itaúna (MG). 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 86012432. Impugnação da Chapa Alternativa do PMDB de Minas Gerais. 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010318. Campanha pelas eleições diretas para a Presidência da República em Minas Gerais. Arquivos: d0001de0003; d0002de0003; d0003de0003. 

BRASIL. Ministério do Exército. I Exército. 4ª Região Militar/4ª Divisão de Infantaria. Estado-Maior – 2ª Seção. José Simonini Filho (médico e professor). Belo Horizonte, 28 jan. 1969. Documento confidencial. Arquivo Público Mineiro (APM), Pasta 4024, f. 239-240. Acesso em: 4 abr. 2026.

JORNAL BREXÓ. Itaúna, n. 201, 28 abr. 1984. p. 1 e 8.

REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES

A GAZETA. “Monstro”: SNI se espalhou por 249 ministérios e órgãos durante a ditadura. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/es/politica/monstro--sni-se-espalhou-por-249-ministerios-e-orgaos-durante-a-ditadura-03I9. Acesso em: 8 maio 2026.

BBC NEWS BRASIL. Como funcionava o SNI, o “monstro” da repressão criado pela ditadura militar há 60 anos. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz77xg4zIrpo. Acesso em: 8 maio 2026.

CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA. Presidentes: José Simonini Filho. Disponível em: https://www.cmitauna.mg.gov.br/portal/presidentes. Acesso em: 9 maio 2026.

 

quarta-feira, maio 06, 2026

ROSÁRIO SAGRADO

CAPELA DO ROSÁRIO ITAÚNA MG


O adro do Rosário constituía um espaço sagrado vinculado diretamente à antiga Capela de Nossa Senhora do Rosário, integrando não apenas a dimensão religiosa do templo, mas também práticas comunitárias, rituais festivos e sepultamentos. 

Historicamente, o termo “adro” designava a área situada diante, ao redor ou nas proximidades imediatas da igreja, funcionando como extensão simbólica e espiritual do espaço consagrado.

No caso do Rosário de Itaúna, os registros históricos e memorialísticos indicam que esse adro exerceu também função funerária, especialmente relacionada à população afrodescendente e escravizada. 

Embora determinadas representações visuais contemporâneas possuam caráter apenas ilustrativo, é plausível compreender que os enterramentos não se restringiam exclusivamente à parte posterior da capela, mas alcançavam diferentes áreas adjacentes ao templo.

A própria configuração espacial do terreno remanescente atrás da igreja, ainda perceptível nos dias atuais, sugere limitações físicas incompatíveis com a quantidade de sepultamentos mencionados em registros históricos, que apontam para mais de uma centena de enterros realizados no adro. 

Isso reforça a hipótese de que a área funerária se distribuía ao redor do conjunto religioso, abrangendo lados diversos do morro e do espaço sacralizado da capela.

Mais do que um simples espaço externo da igreja, o adro do Rosário deve ser compreendido como território de memória, religiosidade e pertencimento coletivo. 

Nele se articulavam práticas de fé, sociabilidades afrodescendentes, rituais do Reinado e experiências de morte e ancestralidade que marcaram profundamente a formação histórica e cultural de Itaúna.

Fontes e referências históricas reforçam a compreensão do antigo cemitério localizado “aos arredores” da Capela do Rosário, associado ao morro e às celebrações tradicionais do Reinado.







NOTA SOBRE AS IMAGENS E VÍDEO DA CAPELA DO ROSÁRIO

Estas imagens e o vídeo apresentados não correspondem a registros históricos originais. Tratam-se de reconstruções visuais interpretativas produzidas com auxílio de inteligência artificial (IA), elaboradas a partir de referências documentais, relatos memorialistas e fontes históricas relacionadas à Capela do Rosário de Itaúna/MG.

A composição foi inspirada em descrições históricas sobre o antigo adro murado da capela, utilizado durante longo período como espaço de sepultamento, especialmente pelas camadas populares da população local. 

Também dialoga com registros e narrativas sobre a presença afrodescendente, os rituais religiosos, o Reinado e a dimensão comunitária existente ao redor da antiga ermida do Rosário.

As cenas procuram representar, de maneira simbólica e sensível, possíveis atmosferas do passado: o pequeno cemitério em torno da igreja, os muros rústicos de pedra, as cruzes simples, os ritos funerários coletivos e a experiência da fé popular no contexto itaunense dos séculos XVIII e XIX.

Mais do que reconstruir visualmente uma paisagem, as imagens e o vídeo buscam evocar sentimentos de ancestralidade, memória, silêncio, espiritualidade e permanência histórica.

As produções devem ser compreendidas como representações artísticas e historiográficas de caráter interpretativo, não como reproduções fiéis ou documentos primários.


No ITAÚNA DÉCADAS, o uso de inteligência artificial ocorre exclusivamente com finalidade cultural, educativa, memorial e de mediação histórica, preservando sempre a distinção entre documento original e reconstrução visual contemporânea.



Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

CAPELA DO ROSÁRIO ITAÚNA MG
 Texto, pesquisa, arte e concepção:



domingo, maio 03, 2026

ITAÚNA FOOT-BALL CLUB

PRIMEIRA AGREMIAÇÃO ESPORTIVA ITAÚNA

PRIMEIRA AGREMIAÇÃO ESPORTIVA

Em maio de 1914, rapazes da época fundaram a primeira agremiação esportiva da cidade denominada “Itaúna Foot-Ball Club”, que tinha por presidente o Sr. Josaphat Santiago, secretário Solon Melo, tesoureiro José Santiago e o juiz treinador Abelardo Lima. 

O campo dos jogos ficava na “Vargem”, nos fundos do Itaúna Hotel, e aos domingos havia partidas frequentadas por grande parte da população. (Dornas, 1936).


Nota histórica sobre a colorização digital da imagem

Destaca-se que a imagem que apresenta o jogador isolado, com boné e o pé apoiado sobre a bola, não corresponde a um registro fotográfico original. Trata-se de uma reconstrução visual gerada por meio de inteligência artificial, elaborada a partir da extração e interpretação de um dos indivíduos presentes na fotografia histórica original.

A partir dessa referência, foram aplicados comandos específicos com o objetivo de produzir uma representação individualizada, inexistente no acervo original. 

Dessa forma, a imagem deve ser compreendida como uma criação digital interpretativa, baseada em elementos históricos, não se configurando como documento primário, mas como recurso visual auxiliar voltado à mediação e à ampliação da compreensão do contexto retratado.

Trata-se de um registro visual cuja materialidade e características técnicas indicam produção em contexto histórico anterior à popularização da fotografia em cores, o que limita a identificação precisa dos elementos cromáticos originais.

A versão colorida apresentada foi produzida por meio de técnicas de inteligência artificial (IA), com o objetivo de oferecer uma reconstituição visual interpretativa das possíveis cores da cena.

Ressalta-se que não existem registros cromáticos da fotografia original, sendo, portanto, impossível determinar com precisão absoluta as cores utilizadas no momento do registro. Nesse sentido, a imagem colorizada deve ser compreendida como uma aproximação visual fundamentada, e não como reprodução fiel.

A colorização adotou como base critérios históricos e técnicos, considerando estudos sobre vestuário esportivo do período, padrões de contraste em fotografia monocromática e a cultura material associada ao futebol nas primeiras décadas do século XX. 

Todavia, a utilização de inteligência artificial em contextos de preservação e interpretação do patrimônio cultural demanda reflexão crítica.

Conforme aponta Bravo (2024), embora tais tecnologias apresentem elevada capacidade de processamento e reconstrução visual, sua aplicação exige avaliação quanto à viabilidade, à sustentabilidade e, sobretudo, às implicações éticas relacionadas à autenticidade e ao valor cultural dos bens patrimoniais. Nesse contexto, torna-se fundamental a atuação interdisciplinar entre especialistas das áreas de arte, tecnologia e conservação.

Além disso, a interpretação da imagem não deve ser entendida como um processo fixo ou definitivo. De acordo com Rodrigues e Rodrigues (2013), interpretar uma imagem implica atribuir sentidos e significados que variam conforme o contexto, a experiência e o olhar do observador, configurando-se como uma leitura possível entre múltiplas alternativas.

Assim, a colorização aqui apresentada constitui apenas uma dentre diversas interpretações plausíveis, construída a partir de critérios técnicos e referências históricas. No campo da preservação e restauração de imagens, a dimensão ética também se impõe como elemento central.

Costa destaca que intervenções visuais devem manter um equilíbrio rigoroso entre a recuperação estética e a preservação da integridade do documento original, evitando que a ação interpretativa ultrapasse os limites da reconstituição e se configure como alteração indevida. 

Tal princípio orientou o processo de colorização, buscando minimizar anacronismos e respeitar as características históricas da imagem.

A presente imagem consiste em uma versão colorizada, por meio de inteligência artificial, de uma fotografia originalmente em preto e branco, provavelmente datada das primeiras décadas do século XX, representando uma equipe de futebol acompanhada de um adulto, possivelmente treinador, dirigente ou professor, posando em ambiente externo.

PRIMEIRA AGREMIAÇÃO ESPORTIVA ITAÚNA

Dessa forma, a versão colorizada constitui um recurso interpretativo que amplia a legibilidade e a acessibilidade do registro histórico, especialmente para públicos contemporâneos.

No entanto, não substitui o documento original em preto e branco, que permanece como fonte primária e referência fundamental para a análise histórica. Ambas as versões devem ser compreendidas de maneira complementar: a original como suporte documental autêntico e a colorizada como instrumento de mediação cultural.


Justificativa técnica

Camisas dos jogadores (azul escuro / azul-marinho):

Escolha baseada na tonalidade muito escura observada na imagem original em escala de cinza. Tecidos utilizados em uniformes esportivos do início do século XX frequentemente apresentavam cores sóbrias como azul-marinho, preto ou verde escuro, devido à durabilidade e disponibilidade de pigmentos.

Calções (branco / off-white):

A alta refletância na fotografia indica tonalidade clara. Registros históricos mostram que calções brancos eram amplamente utilizados no futebol da época, sendo uma convenção comum.

Lenços ou gravatas (branco):

Elementos visivelmente claros na imagem original. O uso de lenços ou gravatas leves fazia parte de uniformes esportivos iniciais, especialmente em contextos amadores ou escolares.

Meias (azul escuro):

Harmonizadas com a cor das camisas, seguindo práticas comuns de uniformização visual em equipes.

Calçados (marrom couro):

Baseado no uso predominante de botas de couro natural no período, frequentemente em tonalidades marrons.

Bola (marrom):

Coerente com bolas de futebol antigas, confeccionadas em couro cru ou tratado, com costuras aparentes.

Traje do adulto (terno marrom/cinza):
Inspirado na moda masculina formal da época, caracterizada por tecidos como tweed e cores neutras.

Vegetação (tons naturais de verde):
Aplicados de forma realista, considerando iluminação difusa e textura de vegetação densa.

Considerações metodológicas

   A colorização não deve ser interpretada como reprodução fiel, mas sim como uma interpretação cromática plausível, baseada em: análise de contraste da fotografia original; referências históricas de vestuário esportivo; conhecimento sobre materiais e pigmentos disponíveis no período; e padrões visuais de equipes de futebol do início do século XX.

   Adicionalmente, a geração da imagem individualizada por inteligência artificial constitui uma reconstrução interpretativa derivada da fotografia original, elaborada a partir da extração e reconfiguração de elementos visuais, não correspondendo a um registro histórico autêntico.

   Todas as intervenções foram realizadas com o compromisso de minimizar anacronismos e manter coerência histórica, respeitando a distinção entre documento original e produções derivadas.

PRIMEIRA AGREMIAÇÃO ESPORTIVA ITAÚNA

 Identificação do objeto

Título atribuído:  Itaúna Foot-Ball Club

Datação estimada: c. 1900 - 1914

Tipologia: Fotografia histórica (retrato coletivo)

Suporte original: Fotografia monocromática (preto e branco)

Localização: Município de Itaúna (MG)

Estado da imagem original: Baixa definição, granulação acentuada, perda de detalhes finos

Acervo:  DORNAS FILHO, João (1936)

Natureza da intervenção

Tipo de intervenção: Colorização digital interpretativa e geração de imagem derivada por inteligência artificial

Tecnologia empregada: Modelos de inteligência artificial para reconstrução cromática assistida e geração de imagens a partir de referência visual

Mediação humana: Curadoria e ajuste manual das cores, bem como definição de parâmetros e comandos para geração da imagem derivada, com base em referências históricas

Finalidade: Mediação cultural, difusão e ampliação da legibilidade visual, bem como exploração interpretativa de elementos presentes na fotografia original

Caráter: Não substitutivo — a imagem original permanece como documento primário, sendo as demais versões compreendidas como derivações interpretativas

 Sobre o uso de inteligência artificial

A imagem foi processada utilizando modelos de inteligência artificial treinados em reconhecimento visual e geração de imagens, capazes de aplicar cores de forma contextual. A intervenção humana orientou as escolhas cromáticas, garantindo alinhamento com referências históricas.

Adicionalmente, a inteligência artificial foi empregada na geração de uma imagem derivada, correspondente à representação individualizada de um dos jogadores presentes na fotografia original.

Essa imagem foi produzida a partir da interpretação de elementos visuais extraídos do registro histórico, mediante comandos específicos, não correspondendo, portanto, a um documento fotográfico original.

  Conclusão

A versão colorizada constitui um recurso interpretativo que amplia a legibilidade e a acessibilidade do registro histórico, especialmente para públicos contemporâneos. Sua elaboração baseou-se em critérios históricos e técnicos, orientados pela busca de verossimilhança e pela minimização de anacronismos.

Ressalta-se, contudo, que a imagem colorizada não substitui o documento original em preto e branco, o qual permanece como fonte primária e referência fundamental para análise histórica. Ambas as versões devem ser compreendidas de forma complementar, sendo a primeira um instrumento de mediação e a segunda o suporte documental autêntico.

Adicionalmente, a imagem individual gerada por inteligência artificial deve ser compreendida como uma reconstrução interpretativa derivada da fotografia original, não se configurando como registro histórico, mas como recurso visual auxiliar voltado à ampliação da compreensão do contexto representado.

 

Organização e pesquisa: Charles Galvão de Aquino. Historiador – Registro nº343/MG.

Referências:

BRAVO, Teddy Alex Cevallos. Tecnologías para la conservación del arte y patrimonio cultural: algoritmos de inteligencia artificial en aplicaciones. Revista ASRI. Universidad Técnica de Manabí, 2024. Disponível em: https://revistaasri.com/article/view/6741/7327. Acesso em: 2026.

COSTA, Júnior. Revitalizando o passado: IA transforma restauração de imagens. Disponível em: https://juniorcosta.com.br/revitalizando-o-passado-ia-transforma-restauracao-de-imagens/. Acesso em: 2026.

DORNAS FILHO, João. Itaúna: contribuição para a história do município. 1936. p. 86-87.

RODRIGUES, Iara; RODRIGUES, Liliana. Fotografia e a interpretação do real. In: INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2013. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2013/resumos/R8-1342-1.pdf. Acesso em: 2026.